Vaietsê

vaiBereshit/Gênesis 28:10-32:3

Tradição

A Parashá Vaietsê se inicia contando a fuga do patriarca Iaacov, após seu irmão, Essav, ameaçá-lo de morte por ter se sentido lesado com o episódio da troca da primogenitura por um prato de comida.

Ao chegar à casa de seu tio, Lavan, Iaacov se apaixona por Rachel e por ela trabalha sete anos. No dia em que ele deveria desposá-la, Lavan diz-lhe: “Não se faz assim em nosso lugar, dar a menor antes da maior” (Bereshit/Gênesis 24:26). Em outras palavras, o que ele disse foi: esta não é a nossa tradição.

Judaísmo e tradição são palavras indissociáveis. Se questionarmos as pessoas sobre o conceito de judaísmo, algumas vão mencionar que é uma religião, outros citarão a relação com o hebraico e Israel, e outros ainda dirão, um povo com uma história em comum. Mas seguramente, a maioria complementará sua definição explicando que judaísmo é uma tradição.

Tradição é uma palavra vem do latim traditio, que significa “entregar” ou “passar adiante”. A tradição é a transmissão de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas, para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos transmitidos passam a fazer parte da cultura.

É muito comum em nosso dia-a-dia explicarmos determinados costumes judaicos e também não judaicos, afirmando que fazemos tal ato por tradição, como se esta palavra mágica tirasse a nossa responsabilidade de pensarmos sobre a nossa atitude e jogássemos para outra entidade o poder de decisão que deveria ser nosso.

Não há nada mais paralisante do que a frase “devemos fazer isso porque sempre foi assim”. Nossa religião não precisa ser vista como algo antiquado e imutável, como preferem determinadas correntes religiosas. Ser judeu é pensar nas tradições (que são muitas por conta de sua longa história), mas ter o poder de julgar se é pertinente (e/ou ético) mantê-la.

Lavan se escondeu atrás da frase “não se faz assim em nosso lugar” para se aproveitar de seu genro. Assim, não precisaria dar mais explicações.

Prefiro enxergar a tradição judaica como uma base de possibilidades, ao invés de me fechar na cegueira de um caminho imposto desprovido de liberdade de escolha e responsabilidade.

Shabat Shalom,
Gisele Nigri