Vaieshev

vaieBereshit/Gênesis 37:1−40:23

A Mensagem de Deus

Quando jovem os sonhos de José (Iosséf em hebraico) o colocaram num mau caminho. Ele sonhou com sua grandeza, com a submissão dos irmãos e com a elevação acima dos pais.

Compreensivelmente a família não ficou muito satisfeita com ele e indesculpavelmente os irmãos resolveram mata-lo. No final o pouparam, tendo “apenas” vendido ele como escravo para uma caravana que se dirigia ao Egito.

A servidão na casa de Potifar (um alto funcionário da corte do Faraó) amadureceu o jovem e quando ele foi confrontado de novo com sonhos – desta vez não os sonhos dele, mas os de colegas de infortúnio – ele os usa para sair da servidão e para se elevar através da colocação de seu talento a serviço do governo e, em última análise, de toda uma população afetada pela fome.

A história de José tem muitíssimas outras nuances e infinitas possibilidades de interpretação, mas certamente o brevíssimo sumário acima é uma avaliação válida do relato, se bem que certamente não a única.

Em Bereshit / Gênesis, Deus se comunica com os homens através dos sonhos em muitas ocasiões. Jacó descobre que Deus existe na Terra através de um sonho. Avimelech entende que cometeu um erro ao levar Sara para a sua casa através de um sonho e José é o “mestre dos sonhos”, conforme a qualificação derrogatória dos seus irmãos.

Assim que, o uso que José faz de seus sonhos nos ensina sobre do uso do poder da mensagem de Deus. Ela pode ser usada de forma destrutiva ou construtiva. A mensagem divina não é boa em sua essência: seu potencial positivo depende do uso que fazemos dela. A mensagem de Deus cria a religião. Então temos aí, penso eu, um dos ensinamentos da história de José: a validade da religião depende do uso que fazemos dela. De qualquer religião, não apenas do judaísmo.

Olhemos ao nosso redor: a religião impulsiona o ISIS em seu impiedoso massacre de todos os não aderentes que têm a infelicidade de lhe caírem nas mãos. Ao mesmo tempo a religião impulsionou a formidável obra de Zilda Arns a favor dos pobres de nosso país.

Olhemos mais para perto. A mesma religião que convida a ortodoxia judaica a construir comunidades admiravelmente solidárias a faz amargurar pesadamente a vida das mulheres que almejam se divorciar e não têm o consentimento dos maridos.

Que saibamos usar a religião para o bem. Que não acreditemos, nem por um minuto sequer, que o fato de aderir a regras rituais nos exime de compreender e amar a humanidade em sua admirável e divina diversidade e de julgar as ações dos homens.

Shabat Shalom
Raul Cesar Gottlieb