Oren Boljover: “Emocionar as pessoas é uma bênção.”

Esta semana, conversamos com Oren Boljover, chazan da ARI:

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Quando e como começou a trabalhar na ARI?
Cheguei à ARI como candidato ao lugar de chazan em fevereiro de 1978. Fui escolhido e comecei em junho do mesmo ano. Fiquei até 1994 e, 14 anos depois, em 2008, recebi o convite para voltar.

Meu começo, em 1978, numa congregação de imigrantes e seus filhos, com determinados códigos, padrões e linguagens, foi muito diferente a minha volta em 2008, quando as pessoas, algumas ideias e formas já eram outras. Poderia até se falar em duas congregações diferentes, pois tive de passar por dois processos de adaptação. Mas isso nunca diminuiu a felicidade de estar aqui. Na primeira vez, a ARI era o tipo de congregação que eu estava procurando. Na segunda, foi um “voltar a casa”, o lugar onde tenho afetos profundos e onde faço o que amo.

Quais os momentos mais emocionantes que você presenciou como chazan?
Os rabinos, o chazan André e eu não presenciamos, nós vivemos junto, acompanhamos. Convivemos no dia-a-dia com emoções diversas, derivadas do ciclo de vida das famílias. A própria congregação, em todos esses anos, também passou por momentos muito marcantes, com eventos felizes e outros traumáticos. Isso é a vida, e nesse trabalho estamos à serviço daquilo que as pessoas vão vivendo e precisando. Por isso, os momentos emocionantes são muito frequentes.

2Como você cuida da sua voz? Como se prepara para um evento?
Há uma série de cuidados que a pessoa que trabalha com seu corpo deve ter. A voz é o resultado do funcionamento de um sistema bastante complexo, pelo que é preciso cuidar da saúde, de técnicas respiratórias, do fortalecimento da musculatura laríngea e abdominal, da própria técnica de emissão dos sons. No meu caso, se eu não trabalhar isso diariamente, começo a sentir dificuldade, assim como acontece com qualquer atleta ou instrumentista.

Um aspecto fundamental é evitar o estresse vocal. O abuso vocal cansa. Há que se evitar que a voz fique cansada a cada dia. Há repousos vocais obrigatórios, para se recuperar do uso, para que a voz se mantenha sadia e plena, para que na hora soe limpa. Mas essas são as considerações técnicas do dia-a-dia. Já nos minutos anteriores a uma reza eu me preparo rezando. Peço para ser um instrumento útil e eficiente, para que meu congregante receba algo que lhe faça bem.

Gosta de cantar outros estilos musicais?
Sim! Canto e ensino muitas coisas, do clássico ao popular.

No que a técnica de canto litúrgico se diferencia dos outros estilos?
Em nada. Mas é preciso a gente ter claro o papel de um oficiante religioso. Então, o que se diferencia é a intenção.

Você também é cantor de ídiche, não? Como é o trabalho de preparação desse repertório?
O trabalho de preparação desse repertório não é muito diferente de outros. Procuro permanentemente novas canções e preparo arranjos bons para os acompanhamentos. Pesquiso autores, épocas e temáticas, informações que escrevo nos textos introdutórios para cada canção. Ouço gravações de Itzik Manger lendo seus poemas, o discurso de Bashevis Singer recebendo o Nobel de Literatura e outros. Assim, levo ao ouvinte a um contexto determinado que o prepara para a canção que ouvirá. Gosto de distribuir à platéia orientações com fonéticas e traduções, para um momento de canto coletivo.

Há algum motivo que te levou a cantar neste idioma?
O motivo que me leva a cantar em ídishe é afetivo e de missão: a língua materna (em ídish “mame loshn”) ocupa um espaço muito denso na identidade da pessoa. Por isso, o contato com ela nunca é uma experiência leve, superficial, sempre provoca sentimentos fortes e profundos, revive lembranças de todo tipo. No caso do ídishe, trata-se da língua materna de muitos milhões de judeus. Se não tivesse havido a Shoá, seriam muitos milhões mais. Eu me dedico ao repertório musical em ídish com muito amor e prazer.

No recital que fiz recentemente para o grupo “Amigos do Ídiche”, no CIB havia 400 pessoas e quase 200 outras não conseguiram ingresso. Para mim, como pessoa e como artista, emocionar as pessoas é uma bênção que agradeço a cada dia, sem exceção.

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Oren Boljover no recente recital que fez ao grupo ‘Amigos do Ídiche’: platéia lotada