Mishpatim

508a1b54-2e00-4b71-814c-3d39f7d7ecb2Shemot/Êxodo – 21:1-24:18

Na parashá anterior, e sob o aconselhamento de Itró, Moshé criou os chefes, ou juízes, para julgarem as disputas “menores”, diminuindo a quantidade enorme de trabalho que estava tendo e que, evidentemente, não estava dando conta. Sendo que as disputas ou causas “maiores” ainda seriam apresentadas à Moshé.

Aumentaria, assim, a eficiência da resolução das disputas e desavenças existentes por meio de julgamentos mais rápidos. A divisão entre causas maiores e menores, não foi ainda determinada na Parashat Itró, porém ficou claro que a quantidade destes problemas e disputas aumentava progressivamente e Moshé precisava de ajuda. Assim, após a criação do “corpo jurídico”, era necessário criar-se a sua ferramenta de trabalho, pois como fariam qualquer julgamento sem terem as causas típicas que por eles seriam julgadas e quais “regras” utilizariam?

Também conhecido como o Livro do Pacto, esta parashá contém o primeiro conjunto de leis da Torá. Conjunto de leis que foi colocada ao povo por Moshé, após terem sido por Deus a ele entregue, e que então seriam utilizadas pelos juízes ou chefes. Leis sobre a escravatura, crimes físicos gerados a outrem, crimes exercidos aos pais, sequestros, crimes efetuados por animais, roubos, empréstimos, justiça para estrangeiros, viúvas e órfãos, honestidade nas cortes, tratamento humano aos inimigos e leis relativas à agricultura. Algumas destas leis que hoje não se aplicariam mais por terem-se tornadas obsoletas, fora de lugar, não mais aplicáveis.

Aprendemos em toda a Torá que a preocupação com o fator humano é fundamental e deve sobrepor-se às ideologias, às regras e, até mesmo, às leis, o que por vezes esquecido nos nossos dias, incluindo-se aqui, por aqueles mesmos que passam a vida estudando nossas leis. Leis que foram criadas, mas que necessitam de uma elaboração melhor ao longo tempo. Leis que não podem ficar estagnadas.

No judaísmo, a este estudo é dada uma importância vital, vide o Talmud por exemplo. Nesta parashá, vejo esta situação brilhantemente colocada em seu final, quando primeiramente o povo em uníssono diz “…naassé” (faremos) ao escutarem as leis proclamadas por Moshé. Após serem escritas e colocadas novamente a ele, povo, diz nesta ordem: “…naassé ve nishmá”- faremos e ouviremos, onde o correto talvez fosse, um verbo como reafirmação do anterior, e corrigindo os tempos verbais,” ouvimos e faremos”. Ao exclamarem inversamente as palavras e ambas no futuro, o verbo “ouvir” teria então o sentido de absorver, entender.

Ou seja, temos aí uma afirmação do povo de que as leis então fazendo parte do pacto, seriam executadas sem questionamentos a princípio e absorvidas posteriormente, entendidas para uma melhor aplicação, considerando-se os fatores não previstos quando escritas e que dependem de cada situação específica, inclusive e principalmente do fator humano.

Assim é que não é eficaz exercermos, aplicarmos leis quando estas não são devidamente absorvidas por um povo. A eficácia de sua aplicação para a melhoria do bem-estar coletivo depende do seu estudo profundo, seu aprimoramento e sua absorção, sua compreensão.

Shabat Shalom,
Sergio Wajnberg