Um olhar contemporâneo sobre o Cântico dos Cânticos
Um olhar contemporâneo sobre o Cântico dos Cânticos
Neste surpreendente livro bíblico, em que a beleza do idioma hebraico atinge seu zênite e o nome do Criador não aparece uma vez sequer, os deleites do amor de um casal de jovens recebem sua mais sublime representação. Por Eliahu Toker
O Cântico dos Cânticos é um dos mais belos textos do Tanach, a Bíblia Hebraica, e, no entanto, é muito pouco conhecido. Em geral, acredita-se que a Bíblia Hebraica, erroneamente chamada “Antigo Testamento”, seja um conjunto de livros religiosos. Contudo, é uma biblioteca formada, segundo a tradição, por 24 livros - que podem ser na realidade 35 ou 39, dependendo da forma com que se os conte -, incluindo livros muito diferentes entre si, e às vezes contraditórios. São livros míticos, históricos, sapienciais, poéticos ou proféticos, atravessados por algumas linhas essenciais, não de caráter religioso, mas de caráter ético. Em termos gerais, uma religião é muitas vezes definida por um conjunto de dogmas, de verdades absolutas e inquestionáveis, enquanto o judaísmo essencial não tem dogmas. Isso não significa, obviamente, que não haja judeus dogmáticos nem que faltem correntes dogmáticas no judaísmo. Mas, em essência, o judaísmo não é uma religião, e sim uma civilização que privilegia, acima da interpretação única e da resposta fechada, uma multiplicidade de questões e interpretações. Esta concepção de mundo explica a inclusão de algumas obras particularmente provocadoras na biblioteca bíblica hebraica, como Jó, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos.
O Cântico é uma pequena obra composta por apenas oito cânticos ou capítulos. Trata-se de um poema pastoral, repleto de ternura, graça, paixão, franqueza e simplicidade, sendo ao mesmo tempo sensual, evocativo, com um delicado erotismo, nunca vulgar. Escrito num hebraico coloquial, poético, o Cântico não menciona Deus ou tema religioso em nenhum momento. Não se conhece de fato seu autor, mas a autoria é atribuída ao rei Salomão. O Cântico integra a terceira parte do Tanach, sendo a primeira parte o Pentateuco, ou seja, os cinco livros de Moisés; a segunda, os livros históricos e proféticos, e a terceira os Escritos, um dos quais é o Cântico. Esta terceira parte só foi canonizada, ou seja, incluída na Bíblia, no segundo século da Era Comum, fato demonstrado, entre outras coisas, pela presença, em seu texto, de alguns termos gregos.
O Cântico dos Cânticos ou Shir há´Shirim, além das inúmeras interpretações que recebeu ao longo dos séculos, é um dos mais belos poemas de amor já escritos. Seus protagonistas são uma amada e seu amado. A menção do amado como rei e pastor pode ser uma alusão à tradição judaica que, durante o casamento, considera o noivo um rei e a noiva uma rainha. Ao longo do texto, eles dialogam entre si ou com um coro e, apesar de o original não diferenciar explicitamente o que dizem ele e ela, é possível deduzir a qual deles pertence cada palavra pela diferente flexão que têm o masculino e o feminino em hebraico. O aparecimento do protagonista “coro” também parece apontar para uma influência grega.
O Cântico começa com as palavras dela:
Beija-me com beijos de tua boca,
Teus amores são melhores do que o vinho;
O alento do teu corpo me embriaga
E pronunciar teu nome desperta fragrâncias que impregnam tudo.
Por isso te amam as donzelas.
Leva-me contigo; corramos ao teu quarto e gozemos com alegria.
Evocar tuas carícias embriaga mais do que o vinho.
Com razão se enamoram de ti.
Filhas de Jerusalém, sou morena, mas sou graciosa;
Morena como as tendas do deserto,
Cheia de graça como os pavilhões do rei.
Não me negligencies por eu ser morena,
É que o sol me queima.
Dize-me, amor, onde vais apascentar teu rebanho e onde descansas ao meio-dia
Para que, buscando-te, eu não me extravie entre os rebanhos de teus companheiros.
Ao que ele responde:
Se não sabes onde me encontrar, bela entre as donzelas, segue as pisadas do meu rebanho e leva teus cabritos a pastar junto às tendas dos pastores.
Oh, bela, minha amada, tens a prestância dos corcéis do faraó.
Que delicado é teu rosto ornado por teu cabelo! Que graça tem teu pescoço com os colares!
E ela replica:
O perfume do meu corpo vai atrás do meu amado aonde quer que vá.
Quando descansa entre meus seios, ele é para mim uma porção de lavanda, um punhado de ervas aromáticas.
E ele:
Que bela és, amada, que bela! Teus olhos são pombas de serenidade e graça.
E, finalmente, responde ela:
Que belo és, amor! Que prazer! No campo temos estendido nossa cama, os ramos dos ciprestes são nosso telhado e os cedros são as colunas de nossa casa.
Este é o primeiro Canto. E, assim como chama a atenção a beleza sensual do texto poético, também se destaca a simplicidade sentimental com que se descreve e se equipara o amor e o desejo de ambos, da donzela e do jovem, do homem e da mulher. E vejam como descreve cada um seu amado.
No quarto Canto, ele diz:
Que bela és, amada, que bela!
Teus olhos têm doçura de pombas,
Teus cabelos são rebanhos
Que descem a colina,
Teus dentes têm a brancura
Das ovelhas tosquiadas que acabam de banhar-se,
Todas iguais;
Teus lábios são duas faixas vermelhas,
Tua palavra é melodiosa, tuas faces têm o rubor da romã,
Teu pescoço tem a graça da torre de David;
Teus seios são um par de filhotes gêmeos
Pastando entre os lírios.
Antes que o dia dissipe as sombras,
Mergulharei em teu monte de perfumes,
Entre tuas colinas de incenso.
És bela, amada, sem defeito algum.
Vem desde o Líbano, amada;
Vem, apressa-te desde as cimeiras,
Desde as covas dos leões
E dos montes dos leopardos.
Irmã minha, esposa, tens roubado o meu coração;
Prende-o com uma jóia somente do teu colar,
Com um dos teus olhos.
Que deliciosos
São os amores contigo, irmã, esposa;
Embriagam mais que o vinho.
O alento do teu corpo é a melhor fragrância.
Teus beijos são doçura; debaixo da tua língua há leite e mel;
E como o incenso aromatiza tuas roupas!
És um jardim, irmã, esposa:
Um jardim fiel, uma fonte fechada que se abre apenas para mim; um pomar de romãs, com frutas deliciosas,
Cipreste, açafrão, canela, nardo,
Árvores aromáticas, balsâmicas.
És um manancial, uma fonte de vida.
E ela diz, no quinto Canto:
Eu durmo, mas meu coração vela
Atento ao chamado de sua voz.
Sonho que meu amado bate em minha porta: “Abre, irmã, amada, pomba, minha perfeita,
Que tenho o meu cabelo umedecido de orvalho e a cabeça encharcada de sereno”.
Já me despi da túnica, vou vesti-la de novo?
Já lavei os pés, vou sujá-los de novo?
Meu amado põe sua mão na fenda da porta e me estremecem as entranhas.
Minhas mãos gotejam mirra.
Levanto-me para abrir, mas ele já não está.
Minha alma sai atrás dele, eu o busco, mas ele já foi embora, chamo e não responde.
Oh, filhas de Jerusalém, eu as faço jurar:
Se encontrarem o meu amado, digam-lhe que desfaleço de amor por ele.
Um trecho que parece evocado por um coro segue-se:
Qual a diferença entre o teu amado e os outros? Como reconhecê-lo, bela entre as donzelas?
E logo ela:
Meu amado é forte e corajoso,
Destaca-se entre os milhares.
Em sua cabeça refulgem cabelos negríssimos.
Seus olhos brilham como pombas
Recém-banhadas no leite,
Descansando junto a um rio; suas faces são um jardim aromático e seus lábios são flores.
Suas mãos parecem talhas de ourives e seu ventre, marfim orlado de safiras.
Suas pernas são colunas torneadas com mármore; é esbelto como um cedro.
Seu falar é doce e ele todo é desejável.
Assim é o meu querido, filhas de Jerusalém, assim é o meu amado.
Não se pode deixar de perguntar por que este belíssimo poema erótico foi incluído em uma biblioteca como a Bíblia Hebraica. Alguns acreditam que o Cântico foi incluído entre os livros sagrados porque, considerado um texto muito belo, sua inclusão no Tanach era a única maneira de assegurar que ele não se perderia. Para conseguir sua inclusão, atribuíram-lhe sentidos alegóricos. Uma vez que, na época, muitos se opuseram à canonização do Cântico, foi o famoso Rabi Akiva o apaixonado defensor de sua inclusão na Bíblia, interpretando metaforicamente cada um dos seus cantos.
Reforçando sua posição, dizia Rabi Akiva que, se todos os livros da Tanach são sagrados, o Cântico dos Cânticos é o mais sagrado entre os sagrados. E acrescentava que aquele que o levasse às salas dos banquetes e o transformasse em um canto libertino não teria lugar no mundo vindouro. Para Rabi Akiva, o Cântico era o único texto totalmente alegórico da Bíblia.
E quais eram essas interpretações alegóricas? Para alguns, trata-se de um canto de amor entre Deus e o povo judeu; Deus como amante e o povo judeu como amada. Assim interpretam o seguinte parágrafo, como um chamado de Deus ao povo judeu para que se desprendesse da escravidão egípcia, uma vez que ele esperava uma liberdade primaveral, quando diz:
Levanta-te, minha bela; levanta-te, amada, que já é passado o inverno, que as chuvas já cessaram, que já se abrem as flores, que já é chegado o tempo das canções.
Já se ouve a voz das pombas em nossa terra; já se tem achado o rebento da figueira;
Já espalham o seu aroma as vinhas em flor.
Levanta-te, minha amada, levanta-te, minha bela, e vem.
E o texto segue, dizendo:
Vem, pomba, não te escondas entre as rochas, não te ocultes entre as fendas.
O qual, seguindo esta interpretação, significaria: “Não te escondas, povo judeu; não temas o Faraó″.
Esta alegada alusão à saída do Egito e o clima primaveral fazem com que, tradicionalmente, se leia o Cântico dos Cânticos em Pessach, festa que celebra ambas as coisas, primavera e liberdade.
E, seguindo com as interpretações alegóricas, “teus seios são um par de filhotes gêmeos” aludiria aos seios que alimentam o povo de Israel - a saber, as duas tábuas da Lei ou também os dois compêndios da Lei, ou seja, a Torá escrita e a oral, ou o Tanach e o Talmude; enquanto, em outra interpretação, os seios seriam Moisés e Aarão.
Em uma leitura de afluxo cabalístico, os protagonistas do Cântico seriam o povo judeu, como amante, e o shabat, o dia de sábado, como amada; também se lê o Cântico na sexta-feira ao pôr do sol, para dar as boas-vindas ao sábado, considerado uma noiva.
Na interpretação cristã do Cântico, Cristo é o esposo e a Igreja é a esposa.
Mas é interessante saber que há muito, desde o século 18, os estudiosos abandonaram a interpretação alegórica do Cântico dos Cânticos. Atualmente, domina a tendência de considerar o Cântico simplesmente um canto de amor, tal como surge de seu sentido manifesto. E, para os observadores que o vêem assim, Deus é, em última instância, o criador do amor, que surge da leitura literal do Cântico, um amor límpido e franco entre um rapaz e uma donzela, que cantam, com palavras apaixonadas, sua beleza mútua.
E o que tem a ver este Cântico dos Cânticos, entendido assim, com uma visão judaica essencial a respeito do amor e da sexualidade? Desde já, trata-se de “uma visão”, porque não é única. Na ultra-ortodoxia judaica, regem ainda, a este respeito, olhares quase medievais e quase cristãos. Mas para o judaísmo, e não apenas o secular, no que diz respeito a este tema e a muitos outros, a palavra-chave é responsabilidade. Em outras palavras, um amor responsável, uma sexualidade responsável, e a não-coisificação do outro - o dever de sempre vê-lo como sujeito, como pessoa, como igual.
Em termos gerais, a concepção judaica da sexualidade é muito diferente, por exemplo, da cristã. Tal como o celibato é o ideal cristão, o matrimônio é o ideal judaico. São Paulo disse, segundo os evangelhos aos “Coríntios”: “É conveniente que um homem não toque uma mulher. É bom para solteiros e viúvos que se mantenham como eu. Mas, se não podem conter-se, que se casem; é melhor ser casado do que queimado”.
Para a tradição judaica, a união matrimonial é um ato sagrado. Casar-se, constituir família, gerar um filho, são maneiras de assumir um ativo compromisso ético, no sentido da transformação e do melhoramento do mundo, compromisso cuja primeira expressão consiste em assumir responsabilidade pelo cuidado de outras pessoas - primeiro a parceira, depois os filhos. E é também fazer-se participante do fascinante mistério da continuidade e da mudança.
“Não é bom que a pessoa esteja só″, diz a Torá em seu início (Bereshit, 2/18). “Uma pessoa só vive sem bênção e sem esperança”, diz o Talmude em seu tratado Kidushin. Solteiro se diz Ravak, em hebraico, que provém de Reik, vazio. O ideal judaico é constituir uma família, núcleo fundante da comunidade; e cada novo par repetir o prodígio de Adão e Eva; no amor, cria novos mundos e abre caminhos - até mesmo em tempos difíceis - a novas esperanças.
Em um tratado do século 13, “Menorat Hamaor”, atribuído a Nachmanides, há um capítulo sobre a santidade das relações sexuais entre os cônjuges. Ele diz: “Um homem não deve considerar a união sexual como algo feio ou repugnante, porque, então, blasfema a Deus. As mãos que escrevem uma santa Torá são celebradas, enquanto as mãos que roubam merecem nosso repúdio. O mesmo acontece com o corpo e com os órgãos sexuais. São moralmente neutros; seu valor moral depende do que se faz com eles”.
Na epístola de santidade, Nachmanides diz ao esposo: “Atraia-a primeiro com uma conversa que a tranqüilize e agrade, de modo que suas intenções estejam em harmonia com ela. Pronuncie palavras que a incitem ao amor, à paixão, à união e ao desejo. Nunca a force, porque de uma união assim não pode participar a Shechiná, a presença divina. Não combata com ela… Conquiste-a com a amabilidade de palavras sedutoras”. Isto, como dissemos, foi escrito no século 13, e podemos encontrar muitos textos com a mesma posição ao longo do Talmude, como posições contrárias; evidentemente, assim é, em sua diversidade de opiniões, o Talmude.
Mas, de volta ao Cântico dos Cânticos, que foi traduzido para todas as línguas da terra, naturalmente recebeu, ou sofreu, centenas de traduções em espanhol, geralmente em uma linguagem arcaica, supostamente para respeitar o tom original. Mas, ao realizar também a tradução deste belíssimo texto, a intenção aqui foi que soasse como um poema recém-escrito em nossa língua; que soasse, poeticamente, com respiração fácil, coloquial, atual, tal como o original hebraico soou em sua época aos seus leitores e ouvintes, há dois milênios.
Para concluir, vale a pena fazer contato com o encanto inteligente de mais dois breves fragmentos deste verdadeiro Cântico dos Cânticos.
No Canto sexto ele diz:
Tens o encanto da cidade de Tirza, amada;
Tens a formosura de Jerusalém.
És imponente como um exército em marcha, com suas bandeiras.
Aparta de mim teus olhos, que me intimidam.
E ela diz, no oitavo e último canto:
Grava-me sobre o teu coração, como uma tatuagem;
Põe-me como um selo sobre o teu braço,
Pois o amor é forte como a morte
E o ciúme, cruel como o inferno.
Não podem apagar o amor rios nem oceanos
E se, com suas riquezas, alguém tentasse comprá-lo, seria objeto de zombaria e desprezo.
Enfim, o Cântico dos Cânticos, que faz parte dessa biblioteca que é a Bíblia Hebraica, é um dos mais belos poemas de amor já escritos; por isso, seria bom que esta nossa aproximação incentivasse os leitores a lê-lo por inteiro e a degustá-lo lentamente.
Eliahu Toker é escritor, poeta e ensaísta.
Tradução de Eziel Belaparte Percino



