Vaigash (5769)
Mumbai – quantas vezes mais?
Por Raul Cesar Gottlieb
Há dez anos escrevi um comentário sobre a
Parashá Vaigash, focando na reconciliação entre
José e seus irmãos. O episódio é um dos mais comoventes
de toda a Torá. Os personagens se abrem em
confissões há muito presas na garganta. Abraçam-se
comovidos. Derramam lágrimas no pescoço uns dos
outros.
No comentário de 1998 eu sustentei que uma das
mensagens deste episódio é que há um momento para
cada coisa. Há um momento para a inveja e há um
momento para o desprendimento. Há um momento
para o amor e um para o ódio. O judaísmo sustenta
que existe um abençoado movimento pendular entre
a ruptura e a reconciliação.
No entanto hoje, sob o impacto da carnificina
acontecida há poucos dias em Mumbai, perdi a
confiança naquelas palavras. Não consigo mais acreditar
que verei a reversão do tempo de ódio em que
estamos inseridos, pois o mundo se esforça para não
entender o que está por trás desta loucura e assim não
consegue encontrar uma forma de erradicar o mal.
Alguns indianos culpam o governo. Os analistas
fazem ilações sobre o traçado da fronteira entre a
Índia e o Paquistão. O que ninguém parece perceber é
que o ódio que habilita jovens a matar serena e indiscriminadamente
emana de um conjunto de valores,
travestidos de valores religiosos, que desautoriza o
outro como ser humano.
Estes valores são a antítese da religião, tal como
entendida pelo judaísmo. Da religião que, como
estrutura básica de sustento da sociedade, busca
obsessivamente garantir dignidade a todos os seres
humanos. Deus deu a vida, em conseqüência mais
ninguém pode se atrever a tirá-la.
Na casa do Chabad em Mumbai pessoas foram
torturadas e mortas apenas pelo fato de serem judias.
Desde a matança das Olimpíadas de Munique em
1972 com a covarde reação do mundo civilizado,
simbolizada pela declaração do presidente Brundage
do COI: “os jogos devem continuar”, sabemos o que
está acontecendo. Dizemos que é um absurdo que o
terror seja justificado como arma política. Dizemos
que a religião foi seqüestrada por assassinos. Porém
não somos escutados. Lembro-me de Bob Dylan:
Quantos ouvidos precisará um homem ter
Até que ele possa ouvir o povo chorar?
Sim e quantas mortes custará até que ele saiba
Que gente demais já morreu?
Sim e quantas vezes pode um homem virar sua cabeça
E fingir simplesmente não ver?
A resposta, meu amigo, está soprando ao vento
A resposta está soprando ao vento
E infelizmente o vento ainda sopra no vazio.
Shabat Shalom




