Vaerá (5769)

Quando dois não querem…

Por Luis Alberto Balassiano

A porção da Torá de Vaerá começa com Deus
dirigindo-se a Moisés. Reafirma-se como o Eterno!
Relembra a Moisés que é Ele o Todo-Poderoso
(El-Shadai) que outrora aparecera para os patriarcas
de Israel. Moisés, portanto, conecta-se a uma história
já inaugurada com Abraão.
Se por um lado Moisés não sofria o peso de ter
de “abrir conversa” com esse Deus, uma vez que os
primeiros contatos foram feitos por Abraão, por outro
lado foi inserido num modelo de relação (projeto)
cujas bases já estavam postas e teriam de ser fielmente
respeitadas por ele.
O Eterno, nessa passagem, ao mesmo tempo em
que se apresenta como o Onipotente, revela também a
sua dimensão atenta e acolhedora, sensível ao drama
humano. Decide-se por libertar o povo hebreu do jugo
egípcio. Ordena a Moisés que retransmita ao povo
as Suas palavras “Eu também escutei o gemido dos
filhos de Israel… e vos tirarei de debaixo das cargas
do Egito e vos salvarei do seu serviço… e vos tomarei
por Meu povo, e serei para vós Deus, e sabereis que
Eu sou o Eterno…” (6: 6-7)
Mas o povo prefere a surdez a ter de ouvir o
Eterno, “por causa da angústia do espírito e pela
dura servidão” (6:9). E quem estaria voluntariamente
disposto a escutar Deus? Tapar os ouvidos, alienar-se
é a reação natural diante de temas graves. Moisés,
por sua vez, também tentava uma saída honrosa, não
queria assumir o encargo de ser porta-voz de Deus e
líder de um povo de espírito maltratado. Argumentava
que tinha dificuldade de fala, gago talvez. Não
convenceu!
Foi falar com o faraó pela liberdade do povo.
Mais uma vez não foi escutado: “E o coração do faraó
endureceu-se e não os escutou…” (7:13). As tratativas
mostraram-se extremamente complexas, o interlocutor
ardiloso e relutante. Começam as “massagens”
para amolecer o coração do faraó: as pragas.
Mas se fosse de outra forma, se o faraó tivesse
de imediato consentido em deixá-los ir, o povo sairia
do Egito?
O povo se fazia de surdo, não queria ouvir falar
sobre nada daquilo, a estreiteza de Mitsraim (Egito;
em português, estreito) confundia-se com a de suas
próprias vidas. Ambos os lados resistiam à subversão
daquele estado de coisas. Independentemente de seu
caráter devastador, o ciclo das pragas mostrou-se,
para ambos os lados, como necessário. Sem elas o
faraó não abriria mão dos hebreus, tampouco eles,
antes de vislumbrarem quem de fato era El-Shadai,
aceitariam perder o faraó, mesmo perverso, para viver
sob os auspícios de seu verdadeiro Senhor.
Shabat Shalom

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