Shirá Beshalach (5769)

Beshalach

Por Ricardo Gorodovits

O trecho mais conhecido desta parashá é a abertura
do mar para a passagem do povo judeu, mar que se fecha sobre o faraó e seus soldados, encerrando o momento decisivo da saída do Egito, ou seja, a liberdade foi alcançada frente a seus antigos senhores, que não mais os perseguirão.No entanto, a sombra da escravidão se faz presente
em diversos trechos posteriores, nesta parashá bem como em outras, manifestando-se por meio de queixas
do povo a Moshé e a Aron toda vez que alguma dificuldade se apresenta. Quando avistam o exército do faraó vindo ao longe, perguntam a Moshé (e a si mesmos) por que; afinal, saíram do Egito, onde mal ou bem viviam, para morrerem nas mãos dos egípcios no deserto. Da mesma forma, quando a fome e a sede surgem, a desconfiança de que o universo limitado ao qual tinham acesso como servos seria melhor que a morte trágica que fatalmente os esperava no percurso até a terra que lhes fora prometida.Em alguns momentos, ao buscar orientação com Deus, Este indica a Moshé o único caminho viável, dizendo: “Que clamas a Mim? Fala aos filhos de Israel que marchem!”. Na ação, o caminho para a liberdade.Um paralelo pode ser feito, entre os dois momentos
extremos da narrativa do deserto, no seu início e ao seu final, por duas situações decisivas que marcam, com surpreendente identificação, as características antagônicas do amálgama humano saído do jugo egípcio, e o povo consistente e consciente de ser o senhor de seu destino: a abertura do mar e a abertura (queda) das muralhas de Jericó. Na abertura
do Mar Vermelho, Moshé age por todos, como um pastor que toca suas ovelhas adiante, na direção desejada. Os recém-libertados praticamente fogem dos soldados do faraó, acreditando no milagre de que tanto precisam e que, ao final, se concretiza. Josué, o mesmo que conduz o incipiente exército israelita contra Amalek, no primeiro dos muitos combates travados nos 40 anos de caminhada, e que também é descrito ao final desta parashá, ao final da travessia,
na entrada em Israel, conduz o povo frente às muralhas de Jericó. As muralhas se rompem ao som do shofar, e a cidade é tomada pelo exército e pelo povo. Se por um lado, há aqui também a referência ao milagre, a queda das sólidas muralhas é fruto da ação coletiva, da postura e vontade de um povo que avança, determinado a ocupar seu espaço na região prometida a seus ancestrais.No mundo de hoje, em que nem sempre percebemos
os pequenos milagres que se operam no dia a dia, segue sendo a ação do homem a responsável por garantir a segurança e a paz a Israel e a todas as nações.
Shabat Shalom

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