Shemot (5769)
Desobediência
Por Felipe Beer Frenkel
Não me lembro que o assunto tenha sido tratado com o devido destaque na imprensa. Em Conferência Diplomática da Organização das Nações Unidas realizada
em Roma em 1998, foi aprovada a criação de um Tribunal Penal Internacional para julgamento de crimes de genocídio, crimes contra a Humanidade e crimes de guerra, além de outros ainda em definição. Este Tribunal, com sede em Haia, encontra-se em funcionamento,
ainda que em caráter incipiente. Entre as premissas legais para atuação desta Corte está que o cumprimento de ordem superior (argumentação muito
usada em Nuremberg) não tira responsabilidade do agressor, a não ser que ele tenha sido obrigado ou ignorasse o caráter ilegal do ato.Na parashá Shemot, lida esta semana, e que abre o livro de Êxodo, são descritas diversas situações em que os personagens agiram em desacordo com as ordens superiores por acreditarem-nas erradas, ainda que tal ação pudesse causar punição pessoal:- o rei do Egito, por temer o crescimento do povo judeu, ordenou às parteiras Shifrá e Puá que matassem
todos os recém-nascidos do sexo masculino. Por acreditarem ser tal atitude contrária à vontade de Deus, desobedeceram a ordem recebida, alegando ao faraó que as mulheres judias eram espertas e tinham seus filhos sozinhas; - a filha do faraó decidiu cuidar de um menino sabidamente judeu, apesar de vigorar ordem de seu pai determinando lançar ao Nilo todos os recém-nascidos judeus, e ainda deu-lhe o nome de Moisés, significando o que foi salvo das águas;- após a primeira tentativa de Moisés para convencer o faraó a libertar seu povo, este resolve castigar os judeus, submetidos à escravidão, aumentando a carga de trabalho. Os capatazes, também judeus, não só não cobraram a nova carga do povo como foram ao faraó reclamar que estava acima da capacidade humanamente possível.Ainda que fosse o caminho mais confortável, que não envolvesse riscos pessoais, e assumindo uma posição concordante com o poder constituído, os personagens da Torá optaram por atitudes que são, felizmente, elogiáveis até os dias de hoje. E finalmente, depois de muito tempo, consagradas em uma corte internacional de justiça.Também Moisés, criado como egípcio na corte do faraó, optou por defender o povo ao qual pertencia ao invés de seguir o fácil caminho da omissão ou assimilação. A melhor opção com frequência não é a aparentemente mais fácil. Com certeza os ensinamentos
de nossa tradição são um excelente guia para que façamos as escolhas acertadas.
Shabat Shalom




