Mishpatim Shekalim (5769)

Mishpatim

Por Jeanette B. Erlich

Dentro do escopo da Torá, se nos pautarmos pela intenção tradicional, todos os ensinamentos têm aparentemente o mesmo valor. Enquanto em diversas parashiot são os relatos o que mais nos enriquece, fazendo-nos refletir, norteando a nossa maneira de viver, em outras, por sua vez, nos  são apresentadas inúmeras leis, de uma forma firme e direta. Mishpatim, como o nome já diz – leis – é uma dessas parashiot, tão ricas em orientações que fica difícil a escolha do assunto que vamos estudar. A Haftará – trecho dos profetas que acompanha Mishpatim - é de Jeremias e trata, em sua quase totalidade,
de graves repreensões e ameaças de castigo divino por causa das atitudes injustas e arrogantes perante os escravos da época. Distinguimos, então, a importância de que se reveste o tema da escravidão como aparece em Mishpatim. Enquanto manter escravos era coisa natural entre todos os povos, tanto nos tempos dos profetas quanto nos tempos da Torá, vamos encontrar em Mishpatim uma quantidade de leis que nos orientam nas relações com eles. O que se ressalta dentro do espírito da Torá é que há uma tendência de refinamento no trato com o próximo. Apesar de o escravo, hebreu ou não, ser sujeito ao seu senhor e ser propriedade deste, procura-se não lhe retirar a condição humana. Todo o respeito lhe é devido e o senhor é responsável por seu bem-estar físico além do que, como lemos no quarto mandamento, o descanso no Shabat lhe é incondicionalmente
preservado. No entanto, esta aparente vantagem pode se desfigurar de tal maneira que leve o escravo a situações de extrema humilhação. Parece-me muito estranha, hipócrita e cínica, seja qual for a mentalidade da época, a lei sob a qual escravos hebreus (mas não os estrangeiros), que em geral adquiriam este status por motivo de dívidas, tinham o direito de serem libertados no ano sabático. Mas num golpe chantagista, se  a esposa tivesse lhe sido dada pelo seu senhor, esposa e filhos poderiam ser retidos por este. Para não se separar de sua família, diz a lei, o alforriado poderia declarar que amava o seu senhor e assim se tornaria escravo para sempre! (Shemot 21: 2-6). Será esta uma ordem de Deus ou mesmo de inspiração
divina, ou estamos aqui diante de uma questão construída para favorecimento de alguns?O espírito das nossas leis tende a nos orientar para um refinamento de nossos pensamentos e ações. Este aperfeiçoamento só poderá se realizar honestamente
se jamais abdicarmos do nosso senso crítico.
Shabat Shalom

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