Itrô (5769)
A Era do Videoclipe
Por Raul Cesar Gottlieb
O professor Daniel Feinstein sustentou num
seminário organizado pela ARI há alguns anos atrás
que o mundo está na “Era do Videoclipe”. Segundo
ele, a edição em altíssima velocidade de fragmentos de
imagens transmite sentimentos e impressões sem dar
tempo para o espectador se aprofundar minimamente
no que está passando na tela.
O videoclipe seria então emblemático da era de
superficialidade em que vivemos, quando os eventos,
com suas múltiplas causas e efeitos, com diferentes
motivações individuais e coletivas dos agentes, são
reduzidos a fórmulas infantilizadas do bem contra o
mal, do forte contra o fraco, do oprimido contra o
opressor e assim por diante.
O professor tem razão. Percebam que os jornais
têm cada vez menos texto e mais figuras. Percebam as
quantidades crescentes de livros de auto-ajuda (alguns
judaicos) com suas fórmulas instantâneas e acessíveis
de sucesso e felicidade. Percebam a pujança das revistas
que dissecam a vida das “celebridades”.
Estamos sim em plena era da supersimplificação
rápida de todos os assuntos, não importando quão
complexos sejam.
Na parashá desta semana os Dez Mandamentos
são entregues aos filhos de Israel. Este momento
central da nossa civilização marca a aceitação das
leis divinas pelos judeus e é rotulado como “a entrega
da Torá no monte Sinai”, entendendo-se por “Torá”
todo o conjunto de literatura judaica – incluindo, num
processo que não temos espaço para analisar aqui,
textos que só seriam escritos mais tarde.
No entanto, conforme o relato bíblico, “apenas”
os Dez Mandamentos são entregues e não toda a Torá.
Os Dez Mandamentos simbolizam a Torá. Eles são
parte central e inalienável da lei judaica, mas não compreendem
de forma alguma a totalidade das mitsvot
que os judeus se comprometeram cumprir no Sinai.
Devido ao seu enorme poder emblemático, os Dez
Mandamentos já fizeram parte de nossa liturgia. No
entanto, para evitar a mensagem de que a Torá poderia
ser resumida a regras curtas e diretas, formuladores
posteriores substituíram este trecho fundamental por
um parágrafo que contém a mais definitiva exortação
à análise cuidadosa e ao estudo encontrada em nossa
literatura: “faça com que entendamos, avaliemos, estudemos,
ensinemos, escutemos e pratiquemos todos
os preceitos de Tua Torá, com amor”.
O Judaísmo se coloca assim frontalmente contra
a redução de assuntos complexos a rótulos facilmente
assimiláveis. Infelizmente estamos na contramão
dos tempos atuais, mas temos fé que a humanidade
ultrapassará em mais algum tempo esta nova idade
das trevas que é a era do videoclipe.
Shabat Shalom




