Chaiê Sará (5769)

Uma vida repleta de escolhas

Por Charles Steiman

O fim da ‘vida de Sara’ (Chaiê Sará) abre este
trecho da Torá, em que também nos despedimos de
Abraão. Aquele que deu origem a inúmeras gerações,
que apareceriam no cenário bíblico como estrelas no
céu e foi pai do monoteísmo das três grandes religiões,
tem seu desaparecimento descrito em pouquíssimas
palavras: “E exalou e morreu Abraão com boa velhice,
idosa e plena, e foi reunido ao seu povo” (25:8).
Mais uma vez, não é a adoração ao personagem que
o autor bíblico quer enfatizar como cerne da saga
humana.
Se nos permitirmos ser analíticos em relação
trajetória de Abraão, podemos até afi rmar que ele teve
uma vida bastante conturbada, trilhando caminhos
inéditos, passando provações, tomando decisões de
cunho pessoal que afetariam o comunitário, e fazendo
escolhas. Abraão ouvia a voz de Deus – eram os tempos
bíblicos. Mas ignorar uma voz, vinda do céu ou
de dentro de nós, pode ser a escolha mais fácil para
uma vida sem difi culdades ou desafi os. ‘Lá no fundo’,
acredito que sabemos o que fazemos, o que queremos.
Exceto se afetados por alguma patologia comportamental,
os seres humanos somos responsáveis.
A pressão social, a crise fi nanceira, o tabu, o casamento,
o preconceito… todos estes fatores podem infl uenciar
nossas escolhas e nos ensurdecer, mas também
temos que admitir esta atitude. Abraão, entretanto,
escolheu ouvir e seguir. Ele confi ou cegamente no seu
destino proposto por Deus. Os personagens bíblicos
pré-mosáicos são cordatos. Moisés, talvez por sua
educação palaciana, é desafi ador, e isso vem a ter seu
preço, como leremos mais adiante.
Breve à sua morte, Abraão fez uma escolha decisiva,
uma das mais imperativas e, certamente para
o ser humano Abraão, bem difícil: “E Abraão deu
tudo o que possuía a Isaac” (25:5) Nesta parashá, são
enumerados os fi lhos de Abraão com suas concubinas,
que são mandados para longe de Isaac, e é determinado
também quem seriam seus herdeiros e sucessores.
Os dois fi lhos, em pé de igualdade, enterram o pai
ao lado de Sara. Isaac, fi lho de Sara, recebe tudo,
enquanto Ismael, fi lho de sua serva Hagar, tem sua
descendência enumerada e encerra sua participação
em nossa história no fi m desta parashá.
“Depois da morte de Abraão, Deus abençoou
Isaac…”(25:11) O homem Abraão determina sua
herança, mas é Deus quem determina a Sua. Talvez
Deus tenha eximido Abraão do peso de decidir quem
carregaria Sua fagulha ao longo das gerações. Deus levou
Abraão, fi nalmente, para seu descanso, eterno.
As trocas de geração, com passagem de liderança
e poder, são momentos difíceis, às vezes dolorosos,
mas necessários, renovadores e inspiradores. Só nos
resta crer que, seja pela voz de Deus ou por nossa
voz interior, ouvimos, e seguimos o caminho certo,
pois aqui estamos e ainda estaremos por gerações
incontáveis… como as estrelas no céu.
Shabat Shalom

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