PARASHAT HASHAVUA

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Por trás das mentiras

Por Felipe Beer Frenkel

Como um romance, repleto de mentiras e trapaças,
em que um marido (Isaac) casado com uma formosa
mulher nega o matrimônio para supostamente
se proteger, sendo depois repreendido por tal atitude
pelo imaginado agressor (Abimelech). Em que um
irmão (Jacob) convence seu gêmeo faminto a trocar
sua herança por um prato de lentilhas. Em que um
fi lho (mais uma vez Jacob) faz-se passar pelo irmão
para enganar o pai em seu leito de morte, recebendo
a bênção que não lhe seria dirigida por direito. Assim
pode ser lida a parashá Toldot, que é a única dedicada
à vida adulta de Isaac. Sendo a Torá o livro maior de
nossa religião, tal interpretação não faz uma propaganda
muito positiva de dois de nossos patriarcas.
Esta parashá é uma passagem muito conhecida,
na qual a ordem natural vigente à época, relativa ao
direito de primogenitura, é alterada para privilegiar
Jacob, que é identifi cado na narrativa como o adequado
continuador da linhagem de seu avô e de seu pai
no processo de formação do povo judeu. Entretanto,
tal situação apresenta a seguinte questão: por que
então Deus não fez Jacob nascer primeiro que Esaú,
já dando ao mais adequado o direito que posteriormente
viria obter por caminhos que não podem ser
descritos como éticos?
Uma possível resposta, que pessoalmente me
agrada, é a intenção de valorizar as virtudes do indivíduo
sobre o simples direito de hereditariedade. Fica
o ensinamento da prevalência do mérito na escolha
dos ocupantes de posições relevantes na sociedade.
Adiante, no próprio texto da Torá encontramos diversos
exemplos neste sentido: Moisés, Judá e José não
eram os primeiros fi lhos de seus pais. Repetidamente
um costume da época é demonstrado equivocado.
Por outro lado, a descrição das mentiras cometidas
por nossos patriarcas mostra que eles eram
seres humanos com muitas qualidades e também
defeitos. A razão de se tornarem exemplos para as
gerações futuras está no fato de que as qualidades
em muito superaram, e até ajudaram a engrandecer
os defeitos. Este é um aspecto muito interessante na
Torá: seus principais personagens não são tratados
como heróis.
Esperar perfeição de seres humanos é ignorar
nossa natureza, saber identifi car as virtudes e tomálas
como exemplo é sinal de sabedoria. Valorizar e
apreciar os aspectos positivos das pessoas, e tentar
desenvolver nossas próprias qualidades são atitudes
que parecem extremamente óbvias, mas muitas vezes
esquecidas no dia a dia. Sem dúvida é uma lição da
Torá para uma vida mais construtiva e feliz.
em>Shabat Shalom

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