PARASHAT HASHAVUA

Mumbai - quantas vezes mais?

Por Raul Cesar Gottlieb

Há dez anos escrevi um comentário sobre a parashá Vaigash, focando na reconciliação entre José e seus irmãos. O espisódio é um dos mais comoventes de toda a Torá. Os personagens se abrem em confissões há muito presas na garganta. Abraçam-se comovidos. Derramam lágrimas no pescoço uns dos outros. No comentário de 1998, eu sustentei que uma das mensagens deste episódio é que há um movimento para cada coisa. Há um momento para a inveja e há um momento para o desprendimento. Há um momento para o amor e um para o ódio. O judaísmo sustenta que existe um abençoado movimento pendular entre a ruptura e a reconciliação. No entanto, hoje, sob o impacto da carnificina acontecida há poucos dias em Mumbai, perdi a confiança naquelas palavras. Não consig mais acreditar que verei a reversão do tempo de ódio em que estamos inseridos, pois o mundo se esforça para não entender o que está por trás desta loucura, e assim não consegue encontrar uma forma de erradicar o mal. Alguns indianos culpam o governo. Os analistas fazem ilações sobre o traçado da fronteira entre a Índia e o Paquistão. O que ninguém parece perceber é que o ódio que habilita jovens a matar serena e indiscriminadamente emana de um conjunto de valores religiosos, que desautoriza o outro como ser humano. Estes valores são a antítese da religião, tal como entendida pelo judaísmo. Da religião que, como estrutura básica de sustento da sociedade, busca obsessivamente garantir dignidade a todos os seres humanos. Deus deu a vida, em conseqüência mais ninguém pode se atrever a tirá-la. Na casa do Chabad em Mumbai pessoas foram tortradas e mortas apenas pelo fato de serem judias. Desde a matança das Olimpíadas de Munique em 1972, com a covarde reação do mundo civilizado siimbolizada pela declaração do presidente Brundage, do COI: “os jogos devem continuar”, sabemos o que está acontecendo. Dizemos que é um absrudo que o terror seja justificado como arma política. Dizemos que a religião foi seqüestrada por assassinos. Porém não somos escutados. Lembro-me de Bob Dylan:

Quantos ouvidos precisará um homem ter
Até que ele possa ouvir o povo chorar?

Sim e quantas mortes custará até que ele saiba
Qe gente demais já morreu?

Sim e quantas vezes pode um homem virar sua cabeça
E fingir simplesmente não ver?

A resposta, meu amigo, está soprando ao vento
A resposta está soprando ao vento

E infelizmente o vento ainda sopra no vazio.

Shabat Shalom

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