JUDAÍSMO PROGRESSISTA

Perguntas e respostas sobre o Judaísmo Progressista

1. Quais são as origens do Judaísmo Progressista ?
2. De que forma o Judaísmo “progride” ?
3. De que forma o Judaísmo Progressista difere do Judaísmo Ortodoxo ?
4. O Judaísmo Progressista constitui um “rompimento” com o Judaísmo histórico?
5. A unicidade de Deus é uma idéia abstrata. De que forma pode fazer diferença na maneira como vivemos ?
6. O que o Judaísmo Progressista tem a dizer sobre a Torá e a Bíblia ?
7. Qual é o “status”da mulher de acordo com o Judaísmo Progressista ?
8. Quais são as diferenças entre os livros de orações Ortodoxos e Progressistas?
9. O que há de diferente na abordagem do Judaísmo Progressista à halachá e à observância religiosa ?
10. O Judaísmo Progressista aceita as leis do Talmud e do Shulchan Aruch ?
11. Qual o grau de liberdade de opção religiosa facultado ao indivíduo ?
12. De que forma os Judeus Progressistas observam o Shabat ?
13. De que forma os Judeus Progressistas encaram os dias festivos do ano judaico ?
14. Por que os rabinos Progressistas realizam em suas sinagogas o casamento de judeus que não podem ser casados em sinagogas ortodoxas ?
15. De que forma o Judaísmo Progressista encara o casamento inter-confessional e a conversão ao judaísmo ?
16. Qual é a atitude do judaísmo progressista em relação aos não-judeus ?

1. Quais são as origens do Judaísmo Progressista ?
No decorrer dos movimentados quatro mil anos de história judaica, sempre houve aqueles que se posicionaram frontal e heroicamente contra qualquer mudança ou compromisso. Os judeus modernos são herdeiros de uma tradição religiosa submetida, durante séculos, a constantes e intensos ataques físicos e ideológicos. No entanto, mesmo em nossas épocas mais conservadoras e intelectualmente rígidas, o Judaísmo valorizou e preservou as palavras e ações dos grandes reformistas religiosos.
Recordamo-nos de que Abraão, o primeiro judeu, abandonou sua pátria de origem, juntamente com sua família, em busca de uma vida livre da idolatria. Moisés, o legislador, transformou uma comunidade de escravos em uma comunidade livre, dotada de uma extraordinária estrutura legislativa. No contexto do mundo antigo, as inovações religiosas da Bíblia são surpreendentes.
No século oito antes da era comum, Amós defendeu resolutamente uma visão radical da justiça social, desafiando o “establishment” religioso de seu tempo. O profeta Deutero Isaías foi o primeiro a proclamar a visão de um Deus universal. Ezra, o Escriba, reformulou as antigas tradições de seu povo. O autor do Livro de Jó abordou o problema do mal de uma forma desafiadora e pouco convencional.
Em épocas pós-bíblicas Hillel não hesitou em adaptar a lei escrita. o Rabbi Jonathan Ben Zakkai permitiu que a Sinagoga sucedesse ao Templo de Jerusalém, como fulcro da vida religiosa. Judá, o Príncipe, ousou colocar em forma escrita a lei oral. O grande filósofo medieval Maimônides codificou o Talmud e tentou conciliar a teoria filosófica grega com a tradição hebraica.
O Judaísmo Progressista, também conhecido como Judaísmo Liberal ou Reforma, iniciou-se na Europa Central no começo do século XIX. Após mais de mil anos de cruel discriminação e constantes perseguições, os judeus da Europa Ocidental foram surpreendidos pelo clamor em prol da liberdade política que se seguiu à Revolução Francesa. A emancipação do gueto foi um processo longo e doloroso que incluiu o afastamento de muitos judeus do Judaísmo.
O Judaísmo Progressista constituiu-se na resposta criativa de toda uma comunidade a um mundo moderno, atraente e emancipado. Constituiu uma das tentativas de fazer face às mudanças sociológicas e históricas resultantes da emancipação política, civil e econômica.
No início do século 19 as mudanças concentraram-se na liturgia, com o objetivo de modernizar o livro de orações. Enfatizou-se o decoro. Música coral, acompanhada por órgão é uma inovação que data desse período. Sermões proferidos no idioma dos congregantes constituiu-se em uma inovação intensamente debatida. O espaço especial reservado às mulheres foi gradualmente abolido e a Confirmação passou a constituir uma cerimônia especial de passagem para a vida adulta para as meninas. O Rabinos começaram a estudar em universidades, recebendo um treinamento acadêmico secular além de sua formação tradicional. Isto lhes permitiu comunicar-se com seus congregantes de maneira moderna e intelectualmente aceitável para a época.
O Judaísmo Liberal europeu transferiu-se para a América do Norte, onde se tornou mais radical e menos tradicional. Muitos dos judeus da Europa Central que imigraram para os Estados Unidos na década de 1850 eram politicamente liberais e buscavam eliminar de suas vidas as sombras de uma Europa reacionária.
Ao final do século XIX a “Ciência do Judaísmo” refletia o desenvolvimento da compreensão da evolução da história e do conhecimento bíblico. Seminários rabínicos não-ortodoxos e não-fundamentalistas haviam sido fundados na Europa e nos Estados Unidos. Associações rabínicas nacionais, então formadas, passavam a sancionar mudanças na prática religiosa. Em contrapartida, os judeus que se recusavam a alterar sua forma de interpretar os textos ou de orar, passaram a ser chamados de “Ortodoxos”.
O mundo judaico de hoje consiste de um caleidoscópio de crenças, movimentos e organizações que vão dos ultra-ortodoxos aos seculares. Na diáspora do mundo ocidental os principais movimentos não-ortodoxos são chamados de Libreais, Conservadores, Reformistas e Reconstrucionistas. Outros termos utilizados para designar estes movimentos como um todo são “Liberal”ou “Progressista”.

2. De que forma o Judaísmo “progride” ?
O desenvolvimento do Judaísmo Progressista é resultado de um processo de confrontação com o tempo, o espaço e as necessidades espirituais do homem, Em momento algum, tratou-se de uma mudança pela mudança, ou da mera abolição de antigos costumes e leis, e sim muito mais de um desejo de renovar as mitzvot, as leis da vida judaica, no quadro do mundo contemporâneo.
Como já foi dito, esta confrontação histórica lidou em um primeiro momento com a forma do serviço religioso. Outras mudanças se seguiriam. Um novo papel para o Rabino rapidamente surgiu em uma sociedade na qual os judeus já não mais eram excluídos nem isolados. A emancipação modificou a forma pela qual as cerimônias significativas do ciclo de vida e as festas eram observadas. A Sinagoga adaptou-se à vida fora do gueto. Muitas destas reformas acabaram por ser incorporadas à vida judaica ortodoxa e hoje fazem parte da vida da comunidade judaica do mundo ocidental.
Entre os princípios básicos desenvolvidos ou redescobertos pelo judaísmo progressista no século 19 estava o conceito de que a oração não deve ser pronunciada automaticamente. Os livros de oração foram revisados de maneira a permitir que homens e mulheres com uma educação moderna pudessem rezar a partir de um texto sem quaisquer reservas ideológicas. Poesias modernas e trechos da literatura judaica foram acrescidos à liturgia, no vernáculo, complementando as orações em hebraico, o sagrado e histórico idioma do povo judeu.
O Judaísmo Progressista não pode ser estático. Para permanecermos intelectualmente vivos precisamos manter-nos abertos a novas idéias e a novas descobertas. A existência judaica é dinâmica e intrinsecamente vinculada ao destino do povo judeu no mundo todo. O sentido judaico de história nos liga àqueles que nos precederam e àqueles que nos sucederão. Não é nosso desejo romper este precioso pacto com Deus, com o povo judeu e com a história. Quanto mais apreendemos sobre a história judaica, mais nos damos conta de que o Judaísmo se modificou e evoluiu em cada geração. A vida ritual e a gama de crenças teológicas que caracterizam as comunidades judaicas progressistas nos dias de hoje são, sob vários aspectos, diferentes das práticas e crenças das primeiras comunidades progressistas. E é assim que deve ser.

3. De que forma o Judaísmo Progressista difere do Judaísmo Ortodoxo ?
É preciso que se recorde que não existe no Hebraico uma palavra bíblica para “religião”. A religião dos judeus - o Judaísmo - sempre foi expressa no seio de uma comunidade. Leis, costumes, cerimônias e uma história comum deram forma à fé do povo judeu.
A mais importante diferença entre as duas formas de expressão religiosa existentes na vida judaica é, sem dúvida, a ênfase dada aos mandamentos (mitzvot) que ligam Deus e a humanidade e aos mandamentos que regem as relações entre os homens. O Judaísmo Ortodoxo ou Rabínico estabelece que as 613 mitzvot encontradas na Torá são fruto de revelação divina. Sua observância rígida é, portanto, de importância crucial e não pode ser modificada sob qualquer aspecto de forma a atender às necessidades ou sensibilidades modernas.
O Judaísmo Progressista vê nas mitzvot uma forma de ajudar o indivíduo a aproximar-se de Deus, intensificar nele a consciência de verdades éticas eternas e de melhorar o mundo em que vivemos. O Judaísmo Progressista atribui primordial importância aos imperativos pessoais, éticos e sociais que governam o comportamento humano no sentido de “moldar o mundo à imagem do divino”. A expressão hebraica para isto é “Tikun Olam”. As observâncias rituais que apoiam e ajudam a realizar estes objetivos devem ser encorajadas. Acreditamos que detalhes específicos da observância sempre vieram à luz através do estudo e das discussões, passando a fazer parte da vida do indivíduo e da comunidade.
O Judaísmo Progressista reafirma o valor deste antigo sistema de mandamentos, mas aceita a possibilidade de desenvolvimento e mudanças. Em contraste com a ortodoxia, o Judaísmo Progressista jamais daria a poio a leis religiosas, por mais antigas que fossem, que negassem a dignidade humana. Esta incluem leis referentes ao status da mulher, à sexualidade, ao tratamento da lepra ou o concedido aos mutilados, bem como a manutenção do status especial dos Kohanim (ou sacerdotes).
Somos a primeira geração a se defrontar com a possibilidade sempre presente da destruição nuclear e da devastação ecológica. O conhecimento científico, a liberdade e a opção moral nos permite escolher entre a vida e a morte, a destruição e a criatividade. Com a disseminação da teconologia nuclear, o fundamentalismo religioso, assim como o fanatismo político, passa a constituir uma séria ameaça à sobrevivência do planeta.

4. O Judaísmo Progressista constitui um “rompimento” com o Judaísmo histórico ?
Bem ao contrário. Nosso movimento religioso é o produto de trinta e cinco séculos de evolução e desenvolvimento histórico. A Bíblia, a Mishná, O Talmud, o Midrash e todas as demais grandes expressões literárias do espírito judaico constituem fontes inesgotáveis de sabedoria, às quais nos voltamos constantemente em busca de orientação e inspiração. Acreditamos que o Judaísmo foi “progressista” desde as suas origens. As inovações, no quadro das leis Bíblicas, a mensagem social dos Profetas, a revolução que acompanhou o desenvolvimento do Judaísmo rabínico, a substituição do sacrifício ritual pela oração pessoal, o desenvolvimento da diáspora e o milagroso renascimento do Estado de Israel são todos elementos igualmente importantes da história do povo judeu.
Em face da perseguição e do tratamento de “párias” conferido aos judeus (tanto na Europa quanto em alguns países islâmicos) a sobrevivência tornou-se uma questão de agarrar-se firmemente àquilo que restava. A confinação em guetos, tanto espirituais quanto físicos, gerou uma profunda e justificável desconfiança em relação ao mundo externo. Em conseqüência, o dinamismo e o desenvolvimento que haviam sido a principal característica do judaísmo foram severamente mutilados.
O Judaísmo Progressista constitui uma expressão religiosa dos judeus modernos que desejam que seu Judaísmo seja relevante. A maior parte dos judeus sabe que existem valores positivos na cultura moderna que o judaísmo deve absorver. Inevitavelmente isto exige a reconstrução do pensamento e da prática religiosa judaica pré-modernos.

5. A unicidade de Deus é uma idéia abstrata. De que forma pode fazer diferença na maneira como vivemos ?
A Teologia, ou “Estudo de Deus” é uma parte relativamente nova da experiência histórica. A Bíblia hebraica considera a presença de Deus um fato indiscutível. Há, é claro, no Shemá (Deut. Cap. 6) a declaração de que Deus é Um. Também os Dez Mandamentos iniciam-se recordando o papel de Deus na retirada dos escravos do Egito.
Na Torá, Moisés pede para ver Deus, mas sua solicitação é negada. Ao encontrar o Divino no deserto, na presença do arbusto que queimava sem ser consumido, ele descobre que o nome de Deus é o verbo ser - no presente, passado e futuro. Não contente com esta revelação, Moisés recebe ordem de abrigar-se na fenda da rocha e alí é informado de que Deus é bondoso, resignado, paciente e misericordioso. No Primeiro Livro de Reis (19:11) Elias esconde-se em uma caverna no deserto e confronta Deus. Há uma grande ventania, mas nos é dito que Deus não está no vento. Segue-se um terremoto e um incêndio, mas Deus também não está ali. Então Elias ouve uma pequena voz silenciosa e, reconhecendo a experiência do Divino, caminha para a entrada da caverna para fazer face ao mundo tal como ele é. A tradição bíblica hebraica resiste à tentação de atribuir a Deus qualquer forma. Somos ensinados a encontrar Deus nos valores espirituais que fazem parte da própria vida. Nas palavras do Rabino Abraham Joshua Heshel, “A religião consiste das perguntas de Deus e das respostas do homem”.
A pequena voz silenciosa ouvida por Elias não é nem mítica, nem insignificante. Em um mundo que parece negligente e privado de valor, o judeu afirma que existe uma voz transcendente e orientadora. A história do Gênesis diz que a criação era “boa” - e até mesmo “muito boa”, mas não a considera “perfeita”. Os seres humanos devem ser parceiros de Deus na transformação do mundo em um lugar melhor. Afirmamos a presença de Deus, optando por agir de forma moral e ética.
Os eventos da história moderna abalaram profundamente a crença religiosa judaica. Como afirmou o moderno filósofo judeu, Emil L. Fackenheim, “Em Auschwitz os judeus eram assassinados, não por terem desobedecido ao Deus da história, e sim porque seus bisavós Lhe haviam prestado obediência”. A resposta forte de Fackenheim a este fato profundo e terrível é um desafio: “Não é permitido ao judeu reagir à tentativa de Hitler de destruição do judaísmo, colaborando para esta destruição. Nos tempos antigos o maior pecado judaico foi a idolatria. Hoje, é reagir a Hitler realizando o seu trabalho… É ordenado aos judeus que sobrevivam como Judeus, para que o povo Judeu não pereça”.
As maneiras pelas quais os judeus falam de Deus sofreram mudanças no decorrer dos séculos. Não existe nada que se possa considerar uma teologia própria da ortodoxia ou do liberalismo. Deus é visto como infinito. Os seres humanos são finitos. Segue-se, portanto, que por mais que tentemos descrever Deus de diferentes formas, jamais teremos sucesso. Existe um sentimento universal de reverência e assombro que os seres humanos reconhecem como uma resposta significativa à vida. O Judaísmo fala de um Deus da história e de um pacto entre Deus e o povo judeu. Os judeus encontram inspiração religiosa no conceito do imperativo ético e moral.
Em nossos dias a ciência, a física e a astronomia começam a revelar uma profunda e engenhosa ordem no seio do Universo. O surgimento de seres dotados de consciência e da capacidade de pensar é visto como um acontecimento altamente significativo. A ciência só nos leva até um certo ponto, mas pressupõe que vivemos em um universo organizado, regulado e infinitamente complexo, no qual , paradoxalmente, até mesmo o caos obedece a certas regras. O Judaísmo Progressista considera que tanto a ciência quanto a filosofia ajudam a dar forma à crença e aos conceitos religiosos.
Muitos judeus vêem Deus como O Ser sobrenatural, cuja presença nos é desvendada através da revelação divina e afirmada pela oração. Outros Judeus vêem a revelação da natureza de Deus através da vida humana. Existem valores que, de fato, sustentam a vida e que podem ser considerados como manifestações do Divino - valores como o amor, a justiça, a liberdade, a consciência, a lei, a educação a cooperação e a renovação. Estes valores são celebrados no decorrer do ano religioso judaico.

6. O que o Judaísmo Progressista tem a dizer sobre a Torá e a Bíblia ?
Na condição de judeus progressistas vemo-nos diante de um documento antigo, cuja linha histórica geral consideramos verdadeira, mas cujas várias estórias trazem em si bem claras as marcas do ambiente em que foram escritas, bem como a visão de mundo específica e muitas fezes falível, de seus autores. Como Judeus reafirmamos a idéia de que a Torá nos revela a palavra divina de Deus. Desta forma, a consideramos como uma obra de verdade eterna, cujo todo é maior do que a soma de suas partes.
Por ser a Bíblia o Livro de nosso Povo, nós a consideramos com amor e respeito. Ela é certamente um testemunho vivo do pacto eterno entre Deus e Israel. A Bíblia Hebraica é o registro escrito do início da história e da identidade judaicas, sobre cujo texto foi construída uma civilização religiosa cheia de vitalidade. Os livros da Bíblia compreendem um período de mil anos e nos descrevem o desenvolvimento de uma nova e surpreendente atitude em relação a Deus e ao comportamento ético.
Para o judeu a Bíblia é o cerne de uma vasta literatura correlata. A postura do Judaísmo Progressista é de valorização e apreço por esta herança. Nenhum texto, no entanto, por mais antigo que seja, pode ser utilizado para justificar o que é moralmente injustificável. O antigo texto hebraico e aramaico deve ser compreendido no contexto de sua época, já que não surgiu em um vácuo cultural, econômico e religioso.
Com a volta do Povo de Israel à Terra de Israel na época moderna, a linguagem da Bíblia tornou-se ainda mais importante e os estudos bíblicos floresceram. A arqueologia do Oriente Médio, o conhecimento de antigos idiomas relacionados ao hebraico e a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto expandiram em muito nosso conhecimento e aumentaram nossa valorização do passado.
O estudo da Bíblia tornou-se uma tarefa compartilhada por estudiosos judeus e não judeus, reduzindo diferenças religiosas e estimulando a cooperação entre estudiosos de diferentes religiões.

7. Qual é o “status” da mulher de acordo com o Judaísmo Progressista ?
O Judaísmo Progressista tem como um de seus princípios orientadores a igualdade entre homens e mulheres em todos os aspectos da vida comunitária. A tradição judaica ensina que a mulher, tal como o homem, foi criada à imagem e semelhança de Deus e que ambos são igualmente parceiros do pacto divino. No entanto, esta idéia nem sempre tem sido posta em prática na vida diária.
O Talmud determina que a mulher é isenta da obrigação de cumprir os mandamentos positivos da Torá sujeitos a limitações de horário, presumindo que as tarefas domésticas não permitiriam às mulheres o tempo para a observância das mitzvot que os homens podem cumprir. A lei rabínica considera que as mulheres são propriedade de seus maridos, “adquiridas” por eles no momento do casamento, não podendo, portanto, servir como testemunhas ou agentes independentes em qualquer transação legal. Nesse quadro, a mulher é sujeita à vontade de seu pai, enquanto criança e de seu marido após o casamento.
A condição da mulher modificou-se no decorrer da história judaica; com o passar do tempo concedeu-se a ela importantes direitos e proteções. Ainda que em tempos bíblicos a mulher fosse propriedade do marido, tornou-se impossível, em tempos rabínicos, casar-se com uma mulher contra sua vontade. A Mishná estabeleceu uma série de circunstâncias especiais nas quais era facultado à mulher divorciar-se de seu marido.
Não há nada que indique a segregação das mulheres nas Sinagogas, há 2.000 anos. Há cerca de mil anos Rabennu Gershom estabeleceu a monogamia para as comunidades judaicas européias. É dele também a decisão de que nenhuma mulher pode ser forçada ao divórcio contra sua vontade.
A igualdade religiosa entre homens e mulheres foi um dos conceitos pioneiros do início da reforma religiosa judaica. O Judaísmo Progressista instituiu a Confirmação para as meninas como uma variante da Bar Mitzvá dos meninos, há mais de 150 anos. Foi, no entanto, apenas em meados do século XX que as mulheres começaram a ser chamadas à Torá. Hoje é praxe nas sinagogas progressistas que as meninas façam seu Bat Mitzvá aos treze anos de idade, cumprindo exatamente os mesmos requisitos educacionais e religiosos dos meninos.
As famílias que adotam o Judaísmo Progressista celebram o nascimento de meninas com uma cerimônia específica que confirma o pacto entre Deus e seu povo, realizada em casa ou na Sinagoga. As mulheres hoje podem e devem seguir o rabinato, conduzir serviços religiosos e ser consideradas na contagem do minian exigido para as orações públicas.

8. Quais são as diferenças entre os livros de orações Ortodoxos e Progressistas?
A palavra Hebraica que indica o “Livro de Orações”- sidur - origina-se da palavra seder ou ordem. A liturgia judaica, ou ordem das orações e a forma como o serviço religioso é conduzido datam dos tempos bíblicos. Muitos salmos textos bíblicos são preservados no serviço religioso judaico moderno.
Nos dias do Templo de Jerusalém, as orações eram recitadas enquanto os Kohanim realizavam a liturgia do sacrifício. Há cerca de 2.000 anos estas orações tornaram-se o quadro de referência para os serviços celebrados nas Sinagogas ou “locais de encontro”. O Templo foi destruido pelos Romanos no ano 70 da era Comum, e a oração substituiu o sacrifício. Teve fim a instituição do sacerdócio hereditário. O foco do serviço sinagogal deslocou-se para a mesa de leitura, os rolos da Torá, o leitor do serviço o púlpito e o Siddur - a ordem das orações. Com o passar dos séculos o texto das orações tornou-se fixo, ainda que existissem muitas diferentes tradições regionais.
O livro de orações tradicional acompanhou o povo judeu através dos séculos. A invenção da imprensa colocou-o nas mãos do fiel comum, ajudando a padronizar a liturgia. Através do livro de orações os Judeus expressavam suas esperanças e desejos, orações e encontravam apoio e consolo. O livro de orações é uma das mais importantes criações literárias do judaísmo. Mas o Sidur é mais do que literatura. Deve falar diretamente ao coração e à consciência de cada pessoa em todas as gerações.
O primeiro livro de orações liberal foi publicado na Alemanha em 1819. Refletia conceitos modernos e introduzia algumas alterações significativas no texto tradicional. No decorrer do século XIX, à medida que o nível educacional geral melhorava, muitas novas edições do livro de orações passaram a ser produzidas no mundo todo, buscando permitir ao fiel orar sem contradições entre o coração e a mente. As alterações introduzidas no texto incluíam a eliminação de orações referentes aos sacrifícios de animais, de referências a uma crença literal na ressurreição física dos mortos e à vinda de um messias em forma humana.
Há dois mil anos, em uma época de opressão e guerras, o judaísmo rabínico desenvolveu a crença em um Messias, um rei ungido, que ocuparia o trono de uma monarquia davídica restaurada e provocaria o retorno dos exilados. O Templo de Jerusalém seria reconstruído e a classe dos antigos sacerdotes reviveria. A era dos grande impérios chefiados por um monarca todo-poderoso pertence ao passado, mas o conceito da esperança em uma redenção final está intimamente ligado à trama da história judaica. O judaísmo progressista reafirma a antiga esperança de uma “Era Messiânica” tornada possível pela aceitação da vontade de Deus por toda a humanidade. Os Judeus Progressistas não crêem no conceito de um “rei messias” em forma humana que venha a impor o domínio de Deus. Cada um de nós deve ser parte de um processo de redenção messiânica.
As mudanças litúrgicas prosseguiram no decorrer do século XX. Os livros de oração do judaísmo progressista foram os primeiros a refletir o milagre do renascimento do Estado de Israel e o horror do Shoah. Canções, orações e poesias hebraicas modernas tornaram-se parte dos novos livros de oração.
Este processo de desenvolvimento, sem dúvida, prosseguirá, já que apenas através de mudanças as tradições podem manter-se vivas e significativas.

9. O que há de diferente na abordagem do Judaísmo Progressista à halachá e à observância religiosa ?
Halachá é uma palavra técnica em aramaico que significa lei e que aparece na literatura rabínica. Em Hebraico esta palavra lembra o verbo “andar”.
Após a destruição do Templo no ano 70, as academias rabínicas e tribunais de Israel começaram a construir um quadro de observância que pudesse substituir o sacerdócio, o sacrifício ritual e uma existência política judaica independente baseada em Jerusalém.
Esta “segunda Torá”- ou Torá Oral, foi inicialmente editada e escrita em uma série de seis grandes livros, chamados Mishná. Os debates rabínicos acerca da Mishná que tiveram lugar no decorrer dos séculos seguintes tanto em Israel como na Babilônia, fazem parte do Talmud. Esta enorme coleção rabínica de leis, lendas, história, estudos de caso e debates estabeleceu as bases da prática religiosa judaica subsequente. A literatura rabínica é, quase por definição, pluralista e dinâmica, refletindo claramente diferentes opiniões e espelhando o ambiente e o mundo intelectual de seu tempo.
A crença Ortodoxa é de que a Torá, suas leis fundamentais, detalhes e interpretações tenham sido dadas através de Moisés no Monte Sinai. A Halachá é, portanto, imutável. Esta postura “fundamentalista” rejeita o conceito de mudança e a possibilidade de desenvolvimento ou inovação na Halachá. Existem muitos exemplos de modificações evolutivas. O Judaísmo Progressista afirma que a lei judaica jamais foi monolítica. O direito de dissenção “pela causa celestial” sempre foi respeitado. Os textos registram cuidadosamente as diferentes interpretações da halachá.
O Judaísmo Progressista busca na halachá valores éticos e rituais. Existem valores tradicionais preservados na halachá que se baseiam na lei bíblica como fundamento de decisões pessoais e comunitárias. A literatura rabínica registra sólidos precedentes de mudanças cuidadosamente avaliadas. Por exemplo, a lei bíblica estabelece a pena de morte para uma série de contravenções. Em tempos pós-bíblicos a lei rabínica cercou estas penas de morte com tantas condições que, na prática, a pena de morte tornou-se obsoleta.
Certas leis bíblicas referentes a contravenções sexuais, pureza ritual, ao ano sabático e ao calendário religioso foram submetidas a profundas mudanças pelos rabinos da Mishná e do Talmud, ou então desenvolvidas a ponto de se tornarem irreconhecíveis na medida em que se alteravam as condições de vida. E assim como naquela época, o mesmo acontece agora. Existe a necessidade de alterar, modificar ou mesmo abolir antigas leis para que seja preservado o impulso ético básico que constitui o fundamento da fé monoteísta iniciada por Abraão e Sara.
O Judaísmo Progressista entende que existe uma hierarquia de valores no âmbito da tradição. As formas iniciais de culto e de comportamento social foram modificadas pela mesma civilização religiosa que as produziu. Aprendemos que a guerra, a pobreza, a fome e a discriminação diminuem a dignidade de todos aqueles criados à imagem de Deus. Desde os seus primeiros códigos de leis o Judaísmo tem sido movido por uma preocupação pela justiça social, pela valorização da vida e pelo ideal de integridade e honestidade pessoal.

10. O Judaísmo Progressista aceita as leis do Talmud e do Shulchan Aruch ?
O Talmud constitui o relato das discussões mais eruditas ocorridas nas academias rabínicas de Israel e da Babilônia entre os séculos III e V da era comum.
O Talmud busca tomar antigas leis da Torá, estabelecidas para uma sociedade mais primitiva em Canaã e expandí-las através de intrincadas interpretações jurídicas, de modo a atender as necessidades de um Judaísmo Babilônico muito mais sofisticado. O Talmud faz parte de um amplo debate de um povo que havia perdido sua terra e seu Templo. Foi, na realidade, um esforço de liberação encetado pelos principais rabinos da época e, desta forma, o Judaísmo Progressista o consideraria de inspiração humana e não divina. Ele representa o desenvolvimento de uma revelação progressiva em uma nova época. Muitos dos costumes e rituais obedecidos por todos os judeus nos dias de hoje encontram sua origem no Talmud.
Existe um processo que registra esse desenvolvimento. Ele está contido em uma vasta literatura de responsa rabínica na qual especialistas em ciência, ética, e legislação rabínica tentam sugerir como os judeus devem se comportar nos dias de hoje. Todos os anos novos volumes de responsa, tanto ortodoxos quanto progressistas, são publicados e lidos tanto por rabinos quanto por leigos.
Na realidade, muitos acreditam que seja necessário, hoje, seguir o ousado exemplo dos judeus da Babilônia, continuando a desenvolver tradições judaicas que combinem o espírito de nossa tradição com as necessidades de nosso século.
O Shulchan Aruch (”A Mesa Posta”) foi publicado há apenas 400 anos por Joseph Caro. Suas quatro partes foram escritas para familiarizar estudantes e adultos de um nível educacional limitado com as leis e princípios básicos do Judaísmo. Trata-se de um sumário das normas da vida judaica desenvolvidas na vasta literatura talmúdica. Tentativas anteriores de codificar as leis judaicas haviam sido feitas por Maimônides e por muitos outros.
O Shulchan Aruch tornou-se o principal código religioso dos judeus. Embora refletisse basicamente costumes rituais dos judeus sefaraditas, foi posteriormente acrescido de comentários de grandes rabinos ashkenazitas (poloneses e alemães). Desta forma, o Shulchan Aruch passou a refletir, de fato, as práticas religiosas de todos os judeus. Permanece, até os nossos dias, como “O Código” entre as comunidades judaicas ortodoxas.
Para o Judaísmo Progressista, o Shulchan Aruch permanece o que era na intenção de seus autores originais, ou seja, um resumo das observâncias religiosas praticadas pelos judeus à época de sua publicação, no século XVI. O Shulchan Aruch serve, portanto, como um recurso, embora não constitua um guia definitivo e determinante para a nossa comunidade.

11. Qual o grau de liberdade de opção religiosa facultado ao indivíduo ?
As decisões religiosas são normalmente adotadas pelas pessoas a três níveis: individual, comunitário e organizacional. No plano individual cada pessoa é obrigada a decidir a questão da observância religiosa, embora seja válido recordar que muitas vezes uma única decisão acabe por envolver toda uma família. Esta questão de opção pessoal deve ser produto do conhecimento e do aprendizado que decorre de um sentimento de identificação com o povo de Israel e da responsabilidade pelo nosso destino.
Em nossa própria geração, o Rabino Jakob J. Petuchowski escreveu estas palavras: “Tudo… o que contribua para a sobrevivência e para a unidade da Comunidade do Pacto de Israel deve ser considerado um mandamento religioso. Por outro lado, tudo o que prejudique o pacto deve ser evitado. Com isto em mente, o judeu Reformista observará muitas mitzvot em relação às quais não sinta qualquer obrigação pessoal”. Segue-se, portanto, que em questões de casamento e de condição pessoal, de Israel e da Diáspora devemos ter cuidado para não prejudicar nosso relacionamento com K’lal Israel - nosso sentimento de sermos parte da comunidade de Israel. É preciso que se admita que, por vezes, esta possa ser uma tarefa impossível já que o Povo de Israel inclui desde os ultra-ortodoxos até os totalmente seculares.
Nenhum judeu está sozinho. Nossas atitudes devem ser determinadas por um sentimento de história, tradição e responsabilidade pelo antigo pacto de nosso povo. É importante ter um rabino ou professor com quem compartilhar a experiência do estudo da Torá. O Judaísmo Progressista diria que é muito difícil fazer parte da comunidade judaica sem pertencer a uma Sinagoga. As festas e o Shabat devem ter lugar em casa e também no âmbito da comunidade religiosa.
Quase todas as observâncias religiosas judaicas têm dois lados: o pessoal e o comunitário. Seria muito triste jejuar e deixar de trabalhar no Yom Kippur sem, ao mesmo tempo, estar com outros judeus ouvindo e pronunciando as grandes orações e melodias de uma das cerimônias religiosas mais bonitas do mundo. Celebrar o Seder na noite de Pessach, deixando de presenciar o canto dos Salmos de Hallel na sinagoga, na manhã seguinte, significa perder uma celebração potencialmente transcendente de nossa tradição.
Assim como não existe a obrigatoriedade de que todos os congregantes observem exatamente as mesmas regras, existem também diferenças e até mesmo desacordos entre os judeus de diferentes partes do mundo. De maneira geral, os judeus progressistas de Israel, da Europa, da África do Sul, da América do Sul, da Austrália e da Nova Zelândia são mais tradicionais do que seus pares na América do Norte.
As mitzvot que orientam e conduzem a vida de cada pessoa nos recordam a presença de Deus no mundo. Expressar gratidão pelo alimento que comemos, separar um dia para celebrar a beleza da criação não constituem meros atos rituais. A necessidade de tratar cada ser humano com dignidade e respeito não constitui apenas a consequência de valores seculares e humanistas. Estas e outras mitzvot impostas ao indivíduo servem para tornar mais clara nossa consciência da presença de Deus.

12. De que forma os Judeus Progressistas observam o Shabat ?
O Judaísmo Progressista enfatiza a natureza positiva do Shabat, para que o sétimo dia possa tornar-se uma experiência de renovação - um dia de santidade e de renovação espiritual. É a nossa oportunidade de escapar do corre-corre do dia a dia e tornar o Shabat um dia especial. São três os princípios básicos dessa observância:
1. Santificar o Shabat, em nossas casas e na sinagoga. A celebração de sexta-feira à noite em casa inclui o acendimento de velas e a recitação do Kiddush, além de outras orações e canções. Na sinagoga, as orações comunitárias e a leitura do trecho semanal da Torá santificam este dia especial.
2. Honrar o Shabat, que não deve ser tratado como um dia “secular”. Mesmo nossas roupas devem refletir o sentimento de um período sagrado. Muitas pessoas dedicam este período a atividades diferentes de seus afazeres de todo dia.
3. Aproveitar o Shabat. A tradição fala de três refeições especiais de Shabat. É bem possível que em tempos antigos três refeições por dia fossem algo excepcional, mas existem outras formas de aproveitar o Shabat com atividades prazeirosas. Este pode ser o dia perfeito para visitas a familiares e amigos.
O Shabat constitui uma parte essencial da observância judaica. Não é apenas o único dia festivo mencionado nos Dez Mandamentos, mas tem, sobretudo, feito parte da vivência comunitária judaica há gerações. Constitui uma opportunidade preciosa de separar-nos das complexidades comerciais e tecnológicas da vida moderna.
Em outras palavras, o Judeu Progressista é instado a frequentar os serviços de Shabat, celebrar este dia especial em sua casa, em torno da mesa de jantar, a encontrar-se com seus amigos, a ouvir a leitura da Torá e participar das discussões, a ler, a estar em contato com a natureza e a despedir-se do Shabat com a bela cerimônia da Havdalá.
Como escreveu o moderno poeta Ahad Ha’am: Mais do que Israel ter mantido o Shabat, foi o Shabat que manteve Israel”.

13. De que forma os Judeus Progressistas encaram os dias festivos do ano judaico ?
O calendário Judaico tece uma teia de crenças e idealismo que liga o indivíduo à presença de Deus no universo. O conceito do Deus Único, indivisível, transcendente e imanente, é transmitido aos judeus, jovens e velhos, através da herança do ano judaico.
O Shabat nos recorda, semana após semana, as mitzvot de repouso e da alegria, do estudo e da oração. Os Yamim Noraim (Grandes Festas ou Dias Terríveis) reunem a comunidade para o arrependimento (Teshuvá) e a renovação espiritual. Temos uma relação direta e pessoal com Deus, que pode ser restaurada através de um arrependimento sincero.
Celebramos as três antigas “Festas da Peregrinação”: Pessach, Shavuot e Sucot - concluindo este ciclo com Simchat Torá. O Pessach nos fala da relevância espiritual da liberdade. Shavuot é a festa da revelação e da Torá. Sucot é a celebração de nossa gratidão pela vida e pela colheita, e é seguida pela festa da alegria pela Torá. Todas as Festas da Peregrinação estiveram, em sua origem, intimamente ligadas às estações do ano e à preservação da natureza. Estas festividades atraiam peregrinos para o Templo de Jerusalém, que durante mil anos foi o único santuário do mundo dedicado à adoração de um Deus único.
Com o passar do tempo o ano judaico passou a incluir outros dias especiais, tais como Chanuca, Purim, Yom Ha’Atzmaut (O Dia da Independência de Israel), Yom Ha’Shoah (Dia de Recordação do Holocausto) e Tish’ah B’Av (O Nove de Av).
Através da oração e dos serviços religiosos, o indivíduo e a comunidade continuam a vivenciar a presença de Deus e a renovar um compromisso comum com a experiência religiosa judaica. Os judeus progressistas observam o calendário bíblico. Tal como os judeus em Israel, deixamos de celebrar o segundo dia das festas, acrescidos na época rabínica, quando havia dúvidas acerca do momento e dia precisos do início de cada uma das festas.

14. Por que os rabinos Progressistas realizam em suas sinagogas o casamento de judeus que não podem ser casados em sinagogas ortodoxas ?
A maior parte dos casamentos realizados nas sinagogas progressistas não são absolutamente diferentes dos casamentos realizados em sinagogas ortodoxas. No entanto, a lei ortodoxa impede o casamento de uma série de pessoas.
a. Um Cohen é proibido de casar-se com uma divorciada ou uma prosélita. O Judaísmo Progressista não reconhece o status especial atribuído aos descendentes dos sacerdotes do antigo Templo. Mesmo que o Templo viesse a ser reconstruído em Jerusalém, não haveria qualquer possibilidade de retomada dos sacrifícios rituais bíblicos por parte de membros de uma casta sacerdotal. Consequentemente, não se coloca mais a questão da adequação ou inadequação de parceiros para tal categoria especial de judeus.
b. De acordo com a lei ortodoxa, uma divorciada não pode voltar a casar-se, a menos que tenha recebido um documento judaico de divórcio (Get) de seu ex-marido. O get só permite que os homens se divorciem de suas esposas. Não é facultado às mulheres dar início ao processo de divórcio e isto viola um dos princípios do judaísmo progressista. O rabinato progressista fará o possível para ajudar na obtenção do get; não permitimos, no entanto, que mulheres sejam chantageadas ou impedidas de voltar a casar-se.
c. A prática ortodoxa no caso de um novo casamento de uma esposa abandonada (agunah) é um procedimento extremamente dificultoso, que muitas vezes causa sofrimentos. Por razões puramente humanitárias, o Judaísmo Progressista permite a estas mulheres voltar a casar-se assim que os tribunais civís de seu país de domicílio as considerarem aptas a fazê-lo.
d. A lei ortodoxa exige que uma viúva sem filhos seja submetida à cerimônia da “chalitzá” (Deut. 25: 5-10) antes de permitir que volte a se casar. O Judaísmo Progressista aboliu esta cerimônia, não apenas por sua natureza degradante, mas também por ter perdido todo sentido. A “chalitzá” só fazia sentido em uma economia puramente agrícola dos tempos bíblicos, nos quais um herdeiro para os campos da família constiruia uma necessidade econômica.
e. Afirmamos o princípio, claramente defendido em Ezequiel 18:20, de que os filhos não podem ser responsabilizados pelas ações de seus pais. Em consequência, rejeitamos a lei do “mamzer” que considera inelegíveis para o casamento, salvo entre semelhantes, os filhos de uniões proibidas pelas leis bíblicas de relacionamento físico e afinidade.
Note-se que os rabinos ortodoxos não reconhecem como judeu um prosélito convertido por um rabino progressista, nem o filho de uma mãe que tenha passado por esse tipo de processo de conversão. Isto constitui um enorme problema teórico nos Estados Unidos onde os judeus ortodoxos constituem uma pequena minoria. Em Israel, a recente chegada de um enorme número de judeus da antiga União Soviética, cujo “judaísmo” não pode ser verificado, abalou um grande número de atitudes tradicionais em relação a questões como status, conversão religiosa e identidade judaica.
É importante destacar claramente que todos os casamentos realizados em sinagogas progressistas são casamentos válidos e reconhecidos pela lei do Estado de Israel. Neles está incluída a assinatura, pelos noivos e por testemunhas, de um documento judaico de casamento (Ketubá). Nossas cerimônias de casamento incluem todos os elementos tradicionais - excetuados aqueles que deixam implícita a idéia de que homens e mulheres não sejam iguais do ponto de vista religioso e social.

15. De que forma o Judaísmo Progressista encara o casamento inter-confessional e a conversão ao judaísmo ?
Nosso movimento sinagogal rejeita totalmente a cerimônia de casamento misto. Embora haja nos Estados Unidos alguns rabinos que oficiam casamentos inter-confessionais, esta prática não é aceita em outros países e regiões em que o Movimento Progressista está estabelecido, tais como na Austrália e Nova Zelândia, na América Latina etc.
Consideramos que se um judeu resolve casar-se com um não-judeu, a cerimônia deve ser de natureza civil. O compromisso de estabelecer e manter um lar judaico e de educar os filhos no judaísmo torna-se muito difícil de ser mantido quando um dos cônjuges não é judeu. Por outro lado, as palavras e cerimônias de um casamento judaico não se aplicam ao parceiro não judeu. Consideramos também sensato que o casal decida a religião que irá permear o futuro da família e dos filhos. Se os adultos forem incapazes de decidir a que grupo pertencem, os filhos sofrerão por falta de um sentimento de identidade e de “pertencer”.
Um casamento judaico é um compromisso público de estabelecimento de um lar judaico. A chupá sob a qual o novo casal se posiciona simboliza o lar que compartilharão. Muitos não-judeus decidem converter-se ao judaísmo depois de casados com judeus. Esta não é uma decisão simples ou fácil. Exige prolongados estudos que incluem o conhecimento do Hebraico, do Judaísmo e da História Judaica. O processo é prolongado e quando o candidato se sente preparado, passa por uma entrevista com um “Bet Din”(Conselho de Rabinos). Os homens devem ser submetidos à circuncisão e todos os conversos passam por um banho ritual (Mikvá) antes de sua cerimônia formal de conversão.
Nos tempos bíblicos o status de uma criança era determinado pelo do pai. No Império Romano o status social era determinado pela linhagem da mãe. Não por acaso, a lei judaica alterou-se durante a hegemonia Romana, passando a religião da criança a ser determinada pela da mãe. Esta é ainda hoje a prática ortodoxa. O filho de uma mãe judia é judeu pela Halachá, mesmo que jamais tenha recebido uma educação judaica. De acordo com o judaísmo progressista, no entanto, esta qualificação biológica não é decisiva. Se o filho de um casamento misto tiver sido educado como judeu e passado pela cerimônia da Bar ou Bat Mitzvá, ou se tiver, de outra forma, demonstrado seu compromisso com a identidade judaica, a sinagoga progressista o aceitará com Judeu de boa fé.

16. Qual é a atitude do judaísmo progressista em relação aos não-judeus ?
A Torá ordena repetidamente aos judeus que respeitem os direitos do estrangeiro. O cerne da Torá inclui o mandamento: “E amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Lev. 19:18).
Os judeus acreditam que todos os seres humanos são criados à imagem e semelhança de Deus e que, portanto, toda pessoa deve ser digna de honra, respeito e dignidade, qualquer que seja sua raça, sexo ou afiliação religiosa. A tradição judaica ensina que “Aquele que dá apoio a uma alma é considerado como tendo dado apoio a toda a humanidade”.
O Judaísmo Progressista considera que a fé e a prática religiosa constituem a expressão do respeito da humanidade na presença do infinito e que existem, portanto, muitos caminhos que levam a Deus. Opomo-nos a qualquer forma de imperialismo religioso ou atividade missionária. A lei e o saber judaicos constituem uma expressão de nosso antigo pacto com Deus, mas mesmo os profetas bíblicos acreditavam que outros povos também tivessem o direito de alegar esse mesmo relacionamento pactual de povos eleitos.
Os modernos estudos bíblicos, a arqueologia e o desenvolvimento da filosofia e da teologia ocidentais aproximaram judeus e cristãos em muitos campos comuns de estudos. O horror da Shoá tornou muitos cristãos conscientes da história trágica do anti-semitismo de inspiração religiosa. Muitos estudiosos cristãos hoje estudam Judaísmo em vários dos grandes seminários judaicos progressistas da Europa e dos Estados Unidos, com o objetivo de aprofundar seus conhecimentos acerda das origens de sua própria fé. O Judaísmo Progressista aprova este encontro de mentes através dos estudos e do respeito mútuo.
Reconhecemos que a verdade absoluta é misteriosa e múltipla e que outras tradições religiosas buscam com sinceridade e encontram a verdade religiosa, de muitas maneiras diferentes. Desta forma, aprovamos e reafirmamos a necessidade de respeito por outras religiões. Através do diálogo com elas, especialmente em nossas sociedades multi-culturais, será possível a promoção de uma compreensão mútua, de amizade e de um enriquecimento espiritual.

Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro
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