Discurso do rabino Dario Bialer na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro

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Erev tov, uma Boa noite a todos. Agradeço ao Gerson e a Teresa Bergher, e através deles a todas autoridades e funcionários dessa casa, por nos receber a cada ano na comemoração de Iom Haatsmaut, e destacar também a presença de todos os presentes que vieram a celebrar, e a nos prestigiar também. Muito obrigado a Todos!

Estar nessa casa celebrando a independência do Estado de Israel é uma mensagem tremendamente valiosa, não apenas para os judeus, mas para toda a sociedade, para todo o povo brasileiro, pois significa a superação de antigos estigmas, que diziam que: ou você é leal ao Brasil, ou você é leal a Israel. Esse olhar mesquinho, responde a um modelo de mundo já anacrônico, que dizia que você só pode ser ou uma coisa ou a outra.

Nessa encruzilhada a Franca de Napoleão colocou aos judeus franceses de muitas gerações já, que nunca puderam ser franceses pelo fato de serem judeus. Essa foi a historia de um povo tão perseguido quanto perseverante que durante milhares de anos de exílio, nunca se esqueceu de Jerusalém, nunca ocultou o seu desejo de voltar, mas também, nunca deixou de reivindicar seu direito e sua vontade profunda , de pertencer as sociedades nas quais moravam faz tanto tempo e pelo desenvolvimento das quais tinham contribuído tanto.

E aqui não se trata de evocar a lista de prêmios Nobel de israelenses ou judeus, nem de destacar as inúmeras descobertas e avanços nos campos da saúde, da tecnologia ou da educação. Não é por isso que um ser humano merece um trato digno e igualitário. O Estado de Israel não foi criado para receber apenas as pessoas bem sucedidas. Isso seria como que um hospital admitisse apenas a pessoas saudáveis.

O Estado de Israel vai dar a mesma acolhida ao judeu da Franca, dos EUA, que ao brasileiro, ao argentino, ou a um refugiado da Ruanda ou da Etiópia, com a diferença que vai dar muito mais facilidades, não ao mais poderoso, mas ao mais necessitado. Os mesmos que, em horas trágicas da história, foram sistematicamente expulsos. A quem, fugindo pela sua vida, tantos países fechavam as portas, Israel as abriu imediatamente. E tudo isso é motivo de orgulho, tanto quanto receber o prêmio de maior prestígio, pois essas ações determinam quem somos, não apenas quando os flashes das câmeras nos apontam, mas nas decisões anônimas e cotidianas, essas que dignificam e servem de exemplo a cidadania.

Não são medidas desesperadas para ganhar votos numa eleição. São políticas de estado que dão sentido ao ser nacional. E com essa missão o Estado de Israel foi sonhado e projetado. Tentando harmonizar visões antagônicas – como não pode ser de outra forma no povo judeu – que eu resumiria em Herzl, evidentemente, e em Achad Haam. O primeiro lutando por um sionismo político, com um estado que resolvesse o problema dos judeus da diáspora. E o segundo advertia para a necessidade de se preocupar pelo destino não só dos judeus, mas também do judaísmo, e, portanto, o sionismo deveria ser além de político, um projeto cultural e pedagógico, e para isso Israel e a diáspora não deveriam ser considerados como centro e periferia, mas dois centros que coexistem, que se alimentam, e nessa somatória, multiplicar o potencial criativo para iluminar já não a uma terra, a uma nação, mas como nos encomenda o mandato bíblico, ser uma luz para todas as nações.

Ser judeu não pressupõe ser portador de uma verdade revelada, mas garantir que todas as verdades possam ser reveladas livremente, sem temores, sem censuras, sem a pretensão de imaginar que nos podemos falar por Deus, mas com a convicção que Deus fala através da humanidade de cada ser humano.

Eu me sinto orgulhoso dessa distinção, pois essa é a terra que eu escolhi para Learbitz Torá ba rabim, para difundir a Torá; para transmitir valores que desde o particular do judaísmo se expandem a qualquer canto do universo aonde sua mensagem seja necessária para, como dizia o profeta Isaías, vestir aos despidos, alimentar aos que tem fome e confortar a aqueles que estão sofrendo.

A terra prometida, não é garantida. Não se trata de um local especifico aonde Deus garante prosperidade e felicidade. É a promessa que para ser conquistada, demanda trabalho, esforço e a dedicação de cada um. A promessa é o potencial que nós temos dentro, e que somos chamados a compartilhar com humildade e devoção.Disso se trata a tarefa rabínica que com orgulho e responsabilidade assumi, e, na escolha dessa cidade, me sinto abençoado pelo que recebo e pelo que devo me esforçar em dar como oferenda.

Essa cidadania honorária me encontra num momento de plenitude, com esposa e filha cariocas e maravilhosas, numa comunidade vibrante, e uma cidade que em seu potencial é mais abençoada do que nenhuma outra, mas como vemos, evidentemente com a bênção de Deus, da natureza, não é suficiente. É preciso que nós, cidadãos, paremos de reclamar dos lideres o que não estamos dispostos a alcançar por nos mesmos, para construirmos todos a promessa, que são valores traduzidos em projeto. Pois nos pensarmos gigantes pela própria natureza sugere uma herança já garantida. E nada mais fantasioso do que isso.

Na vida, a herança deve ser conquistada. Pois o que herdamos, mas não foi conquistado, acaba sendo uma carga, que se carrega a vida toda.

Cada ser humano deveria se perguntar : Como posso honrar aquilo que eu recebi? Como ser digno, merecedor, dessa herança?

Quando compreendemos que a pátria não é apenas a origem, o lugar de nascimento, mas a escolha, produto de ações de pertinência, isso nos aproxima a transcendência de saber que estou aqui nesse mundo para muito mais do que satisfazer um desejo pessoal. Que a terra que habito me da direitos e obrigações, e que a pertinência depende não apenas do que meu documento diz que sou, mas de quem eu trabalho para ser.

Permitam-me concluir com a bênção que diz: “Baruch atá Adonai eloheinu melech há olam, sheecheianu vê kiimanu vê iguianu lazman hazé”. Nessa brachá, podemos nos inspirar, e aprender a reclamar menos pelo que nos falta, e agradecer por tudo o que temos, e por ser quem somos.

Amém.

Rabino Dario Bialer
27 de abril de 2015
Discurso proferido por ocasião do recebimento do título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro