Terumá

Terumá

673a6371-0b32-4911-a149-6c4bdebfe9d5Shemot/Êxodo – 25:1-27:19

Deus falou a Moisés: Procure as pessoas de almas nobres e generosas para que façam uma doação ou uma contribuição para a construção de um santuário, para que Eu possa morar nele e estar entre vocês.

Este santuário será desmontável e transportável durante a viagem pelo deserto. Ele seria remontado a cada parada.

Deus informou a Moisés detalhadas instruções de como construir o santuário. Detalhes precisos dos materiais, ouro, prata, cobre, tábuas de acácia, tapeçarias, lençóis de pele de cabrito e cores. Definiu medidas dos espaços, dos móveis, dos utensílios e da Arca.

Tudo para preparar um lugar para Deus morar e estar entre nós.

Se acreditarmos que Deus está em todos os lugares, infinitos e não físicos, porque Deus estaria nos pedindo para construir um lugar físico para estar junto a nos?

No meio do deserto, de onde os Israelitas iriam achar todos estes materiais necessários para cumprir o pedido de Deus? (já tinham gasto quase todo o ouro na construção do bezerro)

Aliás, Deus não poderia ele mesmo construir este santuário?

Será que para acercar se de Deus, sentir sua presença, somente poderia acontecer num santuário?

A minha resposta e interpretação a todas estas indagações pode ser a seguinte:

“A partir do fato de que o santuário é de natureza móvel, estarei com vocês em qualquer lugar que vocês estiverem “.

Não devemos nos preocupar com os meios que nos cercam. Se construímos em nós mesmos um santuário, cuidando de nossos lares, respeitando os mandamentos, participando da comunidade e melhorando o mundo, Deus já estará morando conosco.

Trata- se de fazer de nós mesmo um Mishcan andante, construído de nosso corpo físico, um lugar que Deus possa morar.

Escrevendo este texto, pensei que algo parecido a Terumá aconteceu. Parece que a ARI recebeu uma mensagem de construir um santuário. Foi achada uma alma generosa que possibilitou a construção. Achamos um arquiteto que levaria adiante o projeto. Obviamente não lhe passamos muitos detalhes de como deveria ser o santuário, apenas confiamos na sua capacidade de fazer algo em que Deus estivesse bem em morar e descansar.

Pedimos ao arquiteto Boris Bayer para que escrevesse algumas linhas sobre o projeto que resultou na nossa linda sinagoga Peres.

“O desenvolvimento do projeto da Sinagoga Peres, na ARI, me levou a reflexões pouco usuais ao cotidiano profissional. Como arquiteto me cabe providenciar espaços adequados ao exercício de determinada atividade, a função, bem como a manipulação de conceitos estéticos, a forma. No entanto, não me parecia o bastante; haveria também de contar uma historia, nossa Historia e Tradições, dos nossos bens culturais, talvez os mais preciosos.

Assim, tomando o “Genesis” como fio condutor, as referencias foram se multiplicando: as águas vertendo da rocha; o céu no momento da Revelação; o teto em linhas curvas evocando o Universo, a ampla casa do Senhor; um padrão retilíneo sobre as paredes e pisos, a linha do homem; o Aron Hakodesh em meio á um jardim contrastando a dinâmica da vida com a eternidade da Lei, da palavra; a Luz Eterna construída segundo design da época; o padrão dos pisos em cerâmica, como o dos tapetes que cobririam o Solo Sagrado, quando ainda no deserto, e por ai vai.

Do ponto de vista das nossas próprias estórias pessoais, desde o seu mais tenro começo quando se materializou na cabeça dos seus realizadores, este projeto é tão somente o resultado de um ato de amor”

Podemos agregar que com o “ato de amor” se consegue todos os materiais necessários para construir um santuário.

Shabat Shalom,
Sami Goldstein

Mishpatim

Mishpatim

508a1b54-2e00-4b71-814c-3d39f7d7ecb2Shemot/Êxodo – 21:1-24:18

Na parashá anterior, e sob o aconselhamento de Itró, Moshé criou os chefes, ou juízes, para julgarem as disputas “menores”, diminuindo a quantidade enorme de trabalho que estava tendo e que, evidentemente, não estava dando conta. Sendo que as disputas ou causas “maiores” ainda seriam apresentadas à Moshé.

Aumentaria, assim, a eficiência da resolução das disputas e desavenças existentes por meio de julgamentos mais rápidos. A divisão entre causas maiores e menores, não foi ainda determinada na Parashat Itró, porém ficou claro que a quantidade destes problemas e disputas aumentava progressivamente e Moshé precisava de ajuda. Assim, após a criação do “corpo jurídico”, era necessário criar-se a sua ferramenta de trabalho, pois como fariam qualquer julgamento sem terem as causas típicas que por eles seriam julgadas e quais “regras” utilizariam?

Também conhecido como o Livro do Pacto, esta parashá contém o primeiro conjunto de leis da Torá. Conjunto de leis que foi colocada ao povo por Moshé, após terem sido por Deus a ele entregue, e que então seriam utilizadas pelos juízes ou chefes. Leis sobre a escravatura, crimes físicos gerados a outrem, crimes exercidos aos pais, sequestros, crimes efetuados por animais, roubos, empréstimos, justiça para estrangeiros, viúvas e órfãos, honestidade nas cortes, tratamento humano aos inimigos e leis relativas à agricultura. Algumas destas leis que hoje não se aplicariam mais por terem-se tornadas obsoletas, fora de lugar, não mais aplicáveis.

Aprendemos em toda a Torá que a preocupação com o fator humano é fundamental e deve sobrepor-se às ideologias, às regras e, até mesmo, às leis, o que por vezes esquecido nos nossos dias, incluindo-se aqui, por aqueles mesmos que passam a vida estudando nossas leis. Leis que foram criadas, mas que necessitam de uma elaboração melhor ao longo tempo. Leis que não podem ficar estagnadas.

No judaísmo, a este estudo é dada uma importância vital, vide o Talmud por exemplo. Nesta parashá, vejo esta situação brilhantemente colocada em seu final, quando primeiramente o povo em uníssono diz “…naassé” (faremos) ao escutarem as leis proclamadas por Moshé. Após serem escritas e colocadas novamente a ele, povo, diz nesta ordem: “…naassé ve nishmá”- faremos e ouviremos, onde o correto talvez fosse, um verbo como reafirmação do anterior, e corrigindo os tempos verbais,” ouvimos e faremos”. Ao exclamarem inversamente as palavras e ambas no futuro, o verbo “ouvir” teria então o sentido de absorver, entender.

Ou seja, temos aí uma afirmação do povo de que as leis então fazendo parte do pacto, seriam executadas sem questionamentos a princípio e absorvidas posteriormente, entendidas para uma melhor aplicação, considerando-se os fatores não previstos quando escritas e que dependem de cada situação específica, inclusive e principalmente do fator humano.

Assim é que não é eficaz exercermos, aplicarmos leis quando estas não são devidamente absorvidas por um povo. A eficácia de sua aplicação para a melhoria do bem-estar coletivo depende do seu estudo profundo, seu aprimoramento e sua absorção, sua compreensão.

Shabat Shalom,
Sergio Wajnberg

Itró

Itró

3Shemot/Êxodo – 18:1-20:26

O clímax da Torá, a entrega dos Dez Mandamentos acontece nesta parashá, depois das dez pragas e da abertura do mar, a entrega em cima do monte com todos os milhares de pessoas abaixo, olhando para cima, enquanto raios e trovões acontecem na comunicação das leis a Moisés.

Nesta Parashá são estabelecidas leis e códigos de conduta que até então não existiam, o povo que saiu da escravidão, passa a ser povo com leis e regras de conduta, que os levarão à continuidade.

Um povo (sociedade) que não tem leis e regras de conduta é um “velho oeste sem lei”, um “vale tudo”, o que sem duvida expõe o ser humano às falhas inerentes à sua natureza bruta. Seres humanos são capazes de fazer o bem absoluto e o mal absoluto. As regras de conduta e ética nos tornam mais capazes de sermos bons humanos e capazes de viver em sociedades equilibradas, justas e que progridem.

Vale refletir que as leis e regras devem ter seguidores e, principalmente, defensores, observadores do cumprimento, interpretadores e aplicadores das leis, Juízes, assim acho a conexão com ITRÓ NÃO judeu, destaque da parashá, que inclusive a nomeia. ITRÓ sogro de Moisés, sacerdote do povo de Midiam (de outra religião) mostrou a Moises o que o povo estava precisando naquele momento… Itró observa e aconselha a Moisés a dividir o trabalho dos julgamentos e o aconselha a nomear juízes de forma a fazer fluir as decisões com mais rapidez, Itró dá sua contribuição a Moises que imediatamente aceita o conselho e forma organização administrativa, mais efetiva para tratar as questões do povo com relação às leis e regras que foram recém reveladas/implantadas.

Precisamos achar “ITRÓS” nos tempos atuais capazes de aconselhar e convencer nossos governantes e sociedade, a acharem formas de fazerem ser efetivas as tão bem pensadas e elaboradas leis e regras que já existem e não são cumpridas pelo povo em geral e também por quem as criou.

Shabat Shalom,
Victor Goldstein

Beshalach

Beshalach

2Shemot/Êxodo – 13:17-17:16

O Combate ao Mal

Dentre inúmeros midrashim (1) que foram escritos a respeito da travessia dos hebreus pelo mar, com a consequente aniquilação dos egípcios, destaco este, retirado do Sefer Hagadot, compilado por Chaim Nachman Bialik e Yeoshua Hana Ravnitzky no começo do século passado:

Quando o Santo, Bendito seja, estava por afogar os Egípcios no mar, Uzza, o príncipe celestial do Egito se levantou e se prostrou diante do Santo, Bendito seja, dizendo: Mestre do Universo: Tu criaste o universo por uma ação de misericórdia. Porque então queres afogar meus filhos?

O Mestre do Universo reuniu então todas as criaturas celestiais e disse a elas: Vocês julgarão entre Eu e Uzza, o príncipe do Egito. Neste momento todos os príncipes celestiais das outras nações começaram a falar em favor do Egito.

Quando Michael percebeu isto, ele deu um sinal a Gabriel (2), que rapidamente desceu ao Egito, pegou um tijolo cuja argila encapsulava uma criança [morta] que havia sido emparedada viva na estrutura.
Ele então voltou e postando-se frente do Santo, Bendito seja, disse: Mestre do Universo, desta forma os Egípcios escravizaram os Teus filhos.

A partir daí o Santo, Bendito seja, julgou os Egípcios conforme a medida certa de justiça e os afogou no mar.

Neste instante os anjos quiseram entoar cânticos frente do Santo, Bendito seja, mas Ele os admoestou dizendo: “As obras das Minhas mãos estão se afogando no mar e vocês ousam entoar cânticos na Minha presença!”.

Abstraindo as alusões místicas às cortes celestiais, que nos soam infantis e inadequadas, o midrash contém pelo menos dois conceitos que me parecem ser fundamentais para os dias que vivemos.

Em primeiro lugar a necessidade do julgamento e da ação contra os que produzem o mal. A compaixão tem um limite e o mal precisa ser combatido. O advogado de defesa dos egípcios lança mão dos mesmos argumentos que são usados hoje na defesa dos criminosos: “a punição deles não vai acabar com o mal … o homem impõe penalidades há milênios e o mal continua a existir … precisamos mais de escolas do que de presídios … etc. etc. e etc.”.

O midrash imagina um Deus que se comove frente a estes argumentos, mas que também, no momento em que a maldade é evidenciada não hesita em decretar a sentença. A justiça tem que ser feita na medida certa, os crimes não podem ficar impunes.

Pacificada a questão da necessidade de punir os criminosos surge o segundo conceito: não há nada de prazeroso e divertido na luta contra o mal. Ela não pode ser objeto de cânticos de louvor ou de alegria. Deve ser conduzida com seriedade, determinação e também com tristeza. Enganam-se profundamente os que derivam prazer pela derrocada dos criminosos.

Vivemos um momento fundamental na história da civilização. As lideranças através do mundo se debatem entre continuar a ceder frente às demandas totalitárias e intolerantes de grupos islâmicos ou a confrontá-las com o vigor e a união exigidos pelo porte da ameaça.

Tentam ganhar tempo para não ter que tomar a decisão dolorosa neste momento. Ganham tempo levantando cortinas de fumaça tais como a “perturbação” que Israel teria causado no mundo islâmico ou a pobreza auto imposta por uma parte dos imigrantes que preferem viver das migalhas do “welfare state” a se integrar numa difícil esfera capitalista e competitiva, que é ainda mais difícil para quem não tem educação básica de alguma qualidade.

Mas se a decisão não for tomada agora, terá que ser tomada em algum momento no futuro. E o tempo transcorrido só vai tornar a batalha mais difícil e sangrenta.

Rezamos então para o midrash seja lido e entendido e que, mais que isto, seja usado como inspiração para a decisão correta, pois como disse Ghandi: “o medo tem alguma utilidade, mas a covardia não”.

Shabat Shalom,
Raul Cesar Gottlieb

(1) Midrash (plural midrashim) é a literatura rabínica que se apoia no texto da Torá para estabelecer conceitos e indagações.
(2) Michael e Gabriel são os protetores de Israel nas cortes celestiais imaginadas pelo criador do midrash.

Bo

Bo

boShemot/Êxodo – 10:1-13:16

Contra o fanatismo

A parashat Bo relata os últimos momentos da saída do Egito, um acontecimento bíblico muito importante, lido e interpretado através dos tempos por sábios e estudiosos de todo o mundo e de todas as gerações.

Destaca o momento em que Moisés vai perante o faraó e anuncia que Deus enviará a oitava praga, gafanhotos, a nona, escuridão e a derradeira, a morte dos primogênitos quando, finalmente, a permissão para que o povo saia para o deserto é concedida. O povo, então, se prepara rapidamente e vai rumo à liberdade.

Esta cena, que serve de inspiração até para obras cinematográficas, teria tem um propósito claro: Deus quer que todas as nações do mundo saibam que Ele é superior a qualquer faraó ou poder existente na terra. Essa ideia, no entanto, foi superada por grande parte dos judeus. Para nós o importante é lembrar que fomos escravos e hoje somos livres para fazer nossas escolhas. O povo de Israel e grande parte do mundo aceita esta mensagem. Usa a palavra de Deus como inspiração, como guia para seus estudos e para sua conduta em família, em comunidade e também na grande sociedade.

No entanto, em pleno século XXI, há lideres extremistas, e seus seguidores fanáticos, que fazem uma leitura primitiva da bíblia e se acham donos da palavra de Deus. Usam uma fonte milenar de sabedoria para tentar impingir ao mundo suas ideias e cometer atrocidades contra toda a humanidade.

Cabe a cada um de nós acompanhar os acontecimentos, estudar e lutar contra o fanatismo.

Shabat shalom,
Débora Rosman

Vaerá

Vaerá

3Shemot/Êxodo – 6:2−9:35

Acabamos de entrar em um novo ano, com muitas perspectivas e projetos por um lado, mas muitas dúvidas também. Temos incertezas e esperanças ao mesmo tempo sobre o que acontecerá com nossas vidas e com as nossas famílias, com o Brasil, com Israel e o Oriente Médio e com o mundo em geral.

Nesta parashá, Moshé se prepara para liderar os israelitas para a liberdade. Deus o guia e o instrui sobre o que fazer e como fazê-lo. Mas Moshé levanta as suas dúvidas sobre como enfrentar esta tarefa tão árdua: o povo nem está interessado em sair e terá de ser convencido, o Faraó tem menos intenção ainda de deixá-los ir e além de tudo ele, Moshé, é gago! Deus instrui Moshé e Aaron, mais uma vez, sobre os métodos e palavras a serem usadas, e juntos eles vão enfrentar essas plateias que flutuam entre a hostilidade e o desinteresse.

Não foi muito fácil, levou dez pragas para convencer o Faraó. O povo israelita foi muito relutante para segui-los também. Nunca é fácil dizer às pessoas para fazer algo que é emocional e fisicamente desafiador quando eles não percebem que tais ações são para seu próprio bem.

É necessário possuir muita coragem para deixar atrás o certo e confortável, mesmo que ruim, para se aventurar num destino desconhecido. Em relação ao que vai acontecer no novo ano, realmente não é nossa escolha entrar nele, mas sim está em nossas mãos muito do que poderá acontecer, e lembremos que Moshé não estava sozinho na sua tarefa, tinha Aaron do seu lado, como nós temos as nossas famílias e comunidade.

Shabat Shalom,
Liliana Wajnberg