Beshalach

2Shemot/Êxodo – 13:17-17:16

O Combate ao Mal

Dentre inúmeros midrashim (1) que foram escritos a respeito da travessia dos hebreus pelo mar, com a consequente aniquilação dos egípcios, destaco este, retirado do Sefer Hagadot, compilado por Chaim Nachman Bialik e Yeoshua Hana Ravnitzky no começo do século passado:

Quando o Santo, Bendito seja, estava por afogar os Egípcios no mar, Uzza, o príncipe celestial do Egito se levantou e se prostrou diante do Santo, Bendito seja, dizendo: Mestre do Universo: Tu criaste o universo por uma ação de misericórdia. Porque então queres afogar meus filhos?

O Mestre do Universo reuniu então todas as criaturas celestiais e disse a elas: Vocês julgarão entre Eu e Uzza, o príncipe do Egito. Neste momento todos os príncipes celestiais das outras nações começaram a falar em favor do Egito.

Quando Michael percebeu isto, ele deu um sinal a Gabriel (2), que rapidamente desceu ao Egito, pegou um tijolo cuja argila encapsulava uma criança [morta] que havia sido emparedada viva na estrutura.
Ele então voltou e postando-se frente do Santo, Bendito seja, disse: Mestre do Universo, desta forma os Egípcios escravizaram os Teus filhos.

A partir daí o Santo, Bendito seja, julgou os Egípcios conforme a medida certa de justiça e os afogou no mar.

Neste instante os anjos quiseram entoar cânticos frente do Santo, Bendito seja, mas Ele os admoestou dizendo: “As obras das Minhas mãos estão se afogando no mar e vocês ousam entoar cânticos na Minha presença!”.

Abstraindo as alusões místicas às cortes celestiais, que nos soam infantis e inadequadas, o midrash contém pelo menos dois conceitos que me parecem ser fundamentais para os dias que vivemos.

Em primeiro lugar a necessidade do julgamento e da ação contra os que produzem o mal. A compaixão tem um limite e o mal precisa ser combatido. O advogado de defesa dos egípcios lança mão dos mesmos argumentos que são usados hoje na defesa dos criminosos: “a punição deles não vai acabar com o mal … o homem impõe penalidades há milênios e o mal continua a existir … precisamos mais de escolas do que de presídios … etc. etc. e etc.”.

O midrash imagina um Deus que se comove frente a estes argumentos, mas que também, no momento em que a maldade é evidenciada não hesita em decretar a sentença. A justiça tem que ser feita na medida certa, os crimes não podem ficar impunes.

Pacificada a questão da necessidade de punir os criminosos surge o segundo conceito: não há nada de prazeroso e divertido na luta contra o mal. Ela não pode ser objeto de cânticos de louvor ou de alegria. Deve ser conduzida com seriedade, determinação e também com tristeza. Enganam-se profundamente os que derivam prazer pela derrocada dos criminosos.

Vivemos um momento fundamental na história da civilização. As lideranças através do mundo se debatem entre continuar a ceder frente às demandas totalitárias e intolerantes de grupos islâmicos ou a confrontá-las com o vigor e a união exigidos pelo porte da ameaça.

Tentam ganhar tempo para não ter que tomar a decisão dolorosa neste momento. Ganham tempo levantando cortinas de fumaça tais como a “perturbação” que Israel teria causado no mundo islâmico ou a pobreza auto imposta por uma parte dos imigrantes que preferem viver das migalhas do “welfare state” a se integrar numa difícil esfera capitalista e competitiva, que é ainda mais difícil para quem não tem educação básica de alguma qualidade.

Mas se a decisão não for tomada agora, terá que ser tomada em algum momento no futuro. E o tempo transcorrido só vai tornar a batalha mais difícil e sangrenta.

Rezamos então para o midrash seja lido e entendido e que, mais que isto, seja usado como inspiração para a decisão correta, pois como disse Ghandi: “o medo tem alguma utilidade, mas a covardia não”.

Shabat Shalom,
Raul Cesar Gottlieb

(1) Midrash (plural midrashim) é a literatura rabínica que se apoia no texto da Torá para estabelecer conceitos e indagações.
(2) Michael e Gabriel são os protetores de Israel nas cortes celestiais imaginadas pelo criador do midrash.