Bereshit/Gênesis 1:1-5:8

ber12(Lida em 16 e 17 de outubro)
Violência da Igualdade

Dois irmãos bem sucedidos, cada um numa atividade, se vêm impelidos a agradecer a Deus pelo bem estar que conquistaram. E tentam fazê-lo no mesmo formato – o mais popular formato de agradecimento a Deus conhecido pela humanidade nos seus primeiros passos da relação com Ele.

O agricultor Caim escolhe os melhores produtos de seu campo: frutas, legumes, espigas, etc. O pastor Abel seleciona a melhor cria de seu rebanho e ambos queimam o produto de seu trabalho em altares esperando que a fumaça resultante chegue aos céus e sensibilize a Deus por seu odor agradável.

O agrado de Deus pelo cheiro da oferenda queimada não é uma invenção minha. A Torá descreve repetidamente que elas devem ter “reach nichoach la Adonai”, ou seja, um odor agradável para Deus. No episódio de Caim e Abel isto não está descrito, mas a menção em dezenas de outras passagens fundamenta solidamente esta especulação.

Contudo, não obstante o empenho e o cuidado de ambos o resultado é ruim. A oferenda de Caim não recebe a mesma aceitação que a de Abel (pois, penso eu, o odor de berinjela queimada não se compara ao de um bom churrasco) e Caim se sente profundamente humilhado.

Ao se sentir preterido em favor do seu irmão ele transforma a humilhação que recebeu dos céus em raiva contra Abel.

Quem ainda não viveu uma situação como esta? Quem nunca foi desprezado por uma moça que decidiu sair com o amigo? Quem nunca ficou ressentido com a melhor nota dada ao trabalho do colega? Quem nunca foi preterido numa promoção em favor de outro colaborador?

E de quem ficamos com raiva nestes casos? Sempre do amigo, do colega e do colaborador. Nunca de quem nos desvalorizou: a moça, o professor e o chefe. Em todos os casos o alvo preferencial da nossa raiva é a pessoa que, a nosso ver, tomou o nosso lugar e não aquela que nos preteriu.

Caim tem a mesma reação e fica com raiva de Abel, que, é importante notar, nada fez de errado. Deus entende o potencial explosivo da situação e o aborda:

Porque te indignas e porque estás deprimido?
Pois, independente de teres oferecido bem ou não,
O pecado espreita furtivamente e por você ele espera,
Mas você pode dominá-lo! (Bereshit 4:6-7)

Deus adverte que a raiva levará ao pecado. Porém a advertência não surte efeito. Caim encontra Abel e o mata. Abel não é assassinado por ter feito algo contra Caim, mas porque seu irmão ficou humilhado (indignado, deprimido) pela suposição de que Deus desprezou a sua oferenda.

O crime poderia ter sido evitado? Haveria possibilidade de Caim ouvir a voz de Deus e dominar a sua raiva? A meu ver isto era quase impossível e a Torá deixa isto bem claro ao fazer o próprio Deus intervir na tentativa. Se nem Ele foi capaz de acalmar Caim, quem seria?

O Talmud elabora sobre isto: “o forte é aquele que controla os seus instintos”, diz com muita sabedoria. Mas a humanidade tem mais pessoas simples do que fortes e Caim não era forte, apesar de ter reunido a força necessária para matar o irmão.

Eu penso que a fraqueza de Caim é a chave deste episódio. Ele era fraco a ponto de tentar copiar o irmão. Ele era fraco a ponto de não conseguir controlar os seus instintos primitivos. Ele era fraco a ponto de pensar que o seu desconforto desapareceria com a eliminação do suposto inimigo.

A tentativa de Caim em ser igual a Abel dá partida para a série de eventos que resulta na tragédia. Tivesse Caim se reconciliado com a sua natureza e procurado a sua forma singular de agradecer a Deus os irmãos teriam continuando a conviver fraternalmente. Mas ele, mesmo sendo um lavrador bem sucedido, tentou copiar Abel.

O reconhecimento que ser diferente não significa ser melhor ou pior é uma das mensagens fundamentais para a vida em harmonia e ela emana deste conhecido episódio de Bereshit, quando a Torá ainda está descrevendo os humanos em geral e não especificamente os hebreus.

Impor a igualdade sempre resultará em violência. Os homens são diferentes por natureza, nos diz a Torá. O episódio de Caim e Abel descreve dois irmãos que, colocados num mundo vazio de experiências prévias, acabam escolhendo dois caminhos diversos e convivem bem com isto. Porém no momento em que um tenta copiar o formato do outro advém a tragédia.

A valorização da diferença foi posta de lado e tentou-se um mesmo modelo religioso para todos. Acabou mal, mesmo se tratando do agradecimento a Deus. Se a valorização da diferença é importante até mesmo nas atividades mais sublimes, quanto mais em todas as demais.

Shabat Shalom,
Raul Cesar Gottlieb