27 DE JANEIRO: Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

hol

70 ANOS DEPOIS…

“Não podemos permitir que em 2015, 70 anos após a Segunda Guerra Mundial, os judeus tenham medo de andar pelas ruas na Europa usando um kipá e tsitsit”, disse o presidente de Israel, Reuven Rivlin, no funeral, em Jerusalém, dos 4 judeus franceses mortos no atentado de janeiro de 2015 no mercado kasher de Paris. Assassinados na Europa, mais uma vez pelo simples fato de serem judeus, como inúmeros antepassados ao longo de séculos.

No dia 12 de abril de 1945, o general Dwight Eisenhower, Comandante-em-chefe das Forças Aliadas e futuro Presidente dos Estados Unidos foi ao campo de Ohrdruf para inspecioná-lo. Queria ser testemunha ocular. Em sua mensagem a Washington, sobre a visita, Ike escreveu: “Após ver, com meus próprios olhos, posso declarar inequivocamente que tudo que foi dito ou escrito, até agora, não consegue descrever os horrores”.

A partir desse momento o mundo tomava conhecimento por meio dos filmes feitos pelos exércitos do que seria conhecido como Holocausto, um acontecimento histórico singular, paradigmático e para muitos “intraduzível”. O espanto foi tamanho que a partir dele se deveria inaugurar uma nova ordem e isso de fato aconteceu com a realização do julgamento, em Nuremberg, dos crimes cometidos crimes contra a humanidade e pouco mais tarde com a criação da Carta dos Direitos do Homem.

Entretanto a esperança pelo nascimento de novos tempos logo se dissipou, pois os genocídios se repetiram por todos os continentes e retornaram à velha Europa ainda na década de 90, durante a guerra da Iugoslávia, sob as luzes das televisões e a atuação das tropas internacionais. Para os judeus a ilusão acabou de pronto quando em 1946, na Polônia, terra do extermínio contracentracional, sobreviventes foram vítimas de um pogrom. E o antissemitismo foi ganhando vida, se espalhando pelo mundo, sofrendo metamorfoses, sob a nova face do anti-israelismo.

De vítimas os judeus passaram a ser tachados de aproveitadores da tragédia. A Israel se nega o direito de ser parte do concerto dos Estados-nações, se exigindo uma conduta díspar de qualquer outro. Essa excepcionalidade alcança todo o povo judeu de quem se cobra responsabilidade pela política de um Estado e uma lealdade exclusiva à nacionalidade de origem. Os inúmeros atentados ocorridos como nos jogos olímpicos de Munique, AMIA e agora Paris são sua concretização.

Algo, entretanto, mudou. Não morro de amores pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, líder do partido Likud, e sua política de assentamentos. No entanto sua imagem, sua postura do orgulho judaico, a altivez, a firmeza do discurso, principalmente nos fóruns internacionais, marcam o sucesso do Sionismo na formação do novo homem, a meu ver presente não só em Israel, mas por todo o povo judeu. Dizem os jornais que era persona non grata nas cerimônias em Paris organizadas por François Hollande e que sua aparição decorreu apenas por assuntos de interesse eleitoral.

Para mim, sua participação foi importante por representar o repúdio de um país, membro da comunidade de nações, que se solidariza à França na luta contra o terrorismo; por representar a chefia de governo de um Estado democrático, fruto da vontade de um povo que buscou ser sujeito de seu destino; por representar a unidade do povo judeu, que sofre em conjunto por um ato de violência bárbaro sem justificativa. Seu polêmico discurso na sinagoga de Paris, no qual afirmou estarmos abençoados, atualmente, por termos o direito de viver juntos a outros judeus em nossa terra ancestral, trazia uma clara mensagem ao resto do mundo: HOLOCAUSTO NUNCA MAIS!
Márcio André Sukman
Coordenador do Centro de Referência e Pesquisa do Holocausto – ARI/RJ